[Texto 3] Marxismo e a opressão às mulheres: por uma teoria unitária, por Lise Vogel

Tradução por Felipe Lakatos. Apresentação por André Porto Freire.

Os artigos que se seguem foram escritos pela feminista-marxista estadunidense Lise Vogel, e estão compilados em seu livro Marxism and the Oppression of Women: Toward a Unitary Theory [Marxismo e a opressão às mulheres: por uma teoria unitária], publicado em 1983. A edição deste livro se dá num contexto de dissenso do debate sobre o trabalho doméstico, que ocorreu nos EUA e na Europa nas décadas de 1960 e 1970, e tinha como objetivo teorizar sobre o caráter do trabalho doméstico, isso é, se ele seria produtivo em termos marxistas e se ele formaria um sistema autônomo ao capitalismo, com uma lógica própria. A partir disso, Vogel se lança ao debate numa tentativa de sistematizar a perspectiva da reprodução social enquanto uma teoria unitária sobre a opressão das mulheres e a sua relação com o capitalismo. Entretanto, a publicação da obra foi seguida por anos de crise do campo socialista e ascensão do neoliberalismo, dando espaço para as teorias sociais pós-modernas nas discussões sobre gênero, essas com um traço claramente fragmentário, anti-materialista e marcado pela repulsa à crítica da economia política  — características essas estranhas ao projeto unitário da reprodução social.

Após produzir um balanço crítico das teorias feministas predominantes de seu período histórico e da abordagem tradicional dos socialistas sobre A Questão da Mulher, Vogel se coloca à procura da base material da condição de opressão das mulheres sob o capitalismo, propondo uma retomada da teoria da sociedade marxiana, resgatando as categorias centrais d’O Capital, como a mercadoria força de trabalho. A partir disso, a autora de Marxismo e a opressão às mulheres tem como premissa de investigação a produção e reprodução diária e geracional da força de trabalho, questionando como essa mercadoria, que é tida para Marx como uma mercadoria especial, é produzida e reproduzida nas sociedades capitalistas. Vogel chega à conclusão que a força de trabalho é produzida de forma “não-capitalista”, já que o seu lugar privilegiado de produção e reprodução é a família da classe trabalhadora, isso é, a mercadoria força de trabalho é produzida de forma predominante dentro das famílias da classe trabalhadora, mas de forma distinta das demais mercadorias, já que a sua produção não é “supervisionada” diretamente pelo capital, ocorrendo em tempos e espaços além dos imperativos imediatos da produção de valor capitalista. Apesar do avanço da mercantilização das formas de reprodução social — como o crescimento de redes de fast-food —, essa continua sendo a forma predominante de reprodução diária e geracional da força de trabalho, causando pouca despesa para a burguesia, principalmente pelas frações mais precarizadas da classe trabalhadora, que têm a sua reprodução diferenciada em relação às demais e assim rebaixando a “cesta básica” média da população trabalhadora (os meios necessários para a subsistência), colocando como central a contradição entre o aumento da mais-valia dos capitalistas e a piora das condições da vida dos trabalhadores.

Com essa perspectiva, Vogel conclui que a base material da opressão de gênero está situada na relação historicamente constituída entre a condição biológica de corpos sexuados femininos e as relações sociais de produção, combatendo, dessa forma, tanto as perspectivas feministas radicais que situavam a base material da opressão de gênero num patriarcado trans-histórico, colocando uma classe sexuada de mulheres contra uma classe sexuada de homens, como as perspectivas marxistas clássicas, como Engels e Bebel, que a partir de uma visão liberal, entendem a condição da opressão das mulheres numa relação de dependência econômica dos homens, além das operaístas, que compreendem que as mulheres são oprimidas no capitalismo porque seu trabalho em casa produz valor para o capital. Entretanto, ao falar sobre a relação entre biologia e capital, podemos cair no risco de biologizar a opressão de gênero. Por isso, Ferguson e McNally (2017) pontuam que “não é a biologia per se que dita a opressão às mulheres, mas, em dez disso, a dependência do capital dos processos biológicos específicos das mulheres — gravidez, parto, lactação — para garantir a reprodução da classe trabalhadora”. Anos depois da má recepção do livro de Vogel, num recente contexto de intensificação das desigualdades sociais e ascensão do fascismo, ressurge a proposta de criação de uma teoria unitária enquanto um campo teórico-prático que recebeu o nome de Teoria da Reprodução Social, tendo como horizonte a construção, a partir da ortodoxia marxista e crítica à economia política, de uma teoria verdadeiramente marxista da opressão de gênero (assim como as demais opressões). A reedição, em 2013, do livro Marxism and the Oppression of Women: Toward a Unitary Theory, além do livro Social Reproduction Theory: Remapping Class, Recentring Oppression, organizado, em 2017, pela Tithi Bhattacharya, fazem parte dos esforços internacionais de colocar no debate público o horizonte socialista da emancipação da classe trabalhadora e da superação das opressões de gênero, raça e sexualidade.

Parte IV: da questão da mulher à libertação das mulheres – capítulo 9: um legado duplo

Como os capítulos anteriores demonstram, a tradição marxista do século XIX e início do XX providencia uma linha teórica limitada em relação aos problemas tanto da opressão das mulheres quanto da sua libertação. Marcada por omissões e inconsistências, a literatura clássica não confronta tais questões de uma maneira sistemática. Muito disso é resultado, afinal, de uma compreensão inadequada da teoria de Marx do desenvolvimento social. Apesar de um compromisso geral com o marxismo, os comentários tendem a vacilar entre diversas críticas da sociedade burguesa de diferentes vertentes, notadamente o socialismo utópico, o materialismo vulgar e o feminismo liberal. Em resumo, nenhum quadro teórico marxista estável foi estabelecido pelos socialistas em termos da consideração da questão das mulheres.

Dado o estado desorganizado de tal trabalho teórico, não é surpresa que certos padrões passaram despercebidos. O fato é que duas abordagens essencialmente contraditórias ao problema da subordinação das mulheres sempre coexistiram dentro da tradição socialista, embora a sua distinção não tenha sido explicitamente reconhecida, nem as posições claramente diferenciadas entre si. Um debate não-enunciado entre duas alternativas tem, portanto, assombrado os esforços de tratar da variedade das principais questões práticas e teóricas acerca da opressão e da libertação das mulheres. A origem desse debate às escondidas vem desde os trabalhos dos próprios Marx e Engels, e ele tomou forma concreta na teoria e na prática ambíguas dos movimentos socialista e comunista posteriores. Tal controvérsia implícita tem reaparecido recentemente, transformada de forma significativa, dentro do movimento de mulheres contemporâneo.

Aparecem, portanto, na literatura socialista, duas visões distintas a respeito da situação das mulheres. Por conveniência, ambas as posições podem ser rotuladas de acordo com o seu ponto de partida de análise da opressão das mulheres. Por um lado, está a “perspectiva de dois sistemas”: a opressão das mulheres deriva da sua situação dentro de um sistema autônomo de divisão sexual do trabalho e supremacia masculina. Por outro lado, está a “perspectiva da reprodução social”: a opressão das mulheres tem suas raízes na localização diferencial das mulheres dentro da reprodução social como um todo[1]. A breve caracterização seguinte de ambas as perspectivas tem como objetivo simplesmente sugerir a base teórica e as consequências analíticas de cada posição. A perspectiva da reprodução social é explorada mais profundamente nos próximos capítulos.

Essencialmente, a perspectiva de dois sistemas surge daquilo que aparece como óbvio: as divisões do trabalho e da autoridade de acordo com o sexo, a opressão das mulheres, e a família. Esses fenômenos são tratados mais ou menos como dados, separáveis analiticamente, pelo menos em parte, das relações sociais nas quais estão fundamentados. A principal tarefa analítica é examinar a origem e o desenvolvimento da correlação empírica entre a divisão sexual do trabalho e a opressão social das mulheres. Em geral, é o envolvimento das mulheres na divisão sexual do trabalho e a sua relação direta – de dependência e de luta – com os homens, ao invés de uma inserção na reprodução social total, que estabelece a sua opressão. Ao mesmo tempo, a opressão das mulheres e a divisão sexual do trabalho são vistas como conectadas ao modo de produção dominante numa dada sociedade, e variando de acordo com a classe. Esses últimos fatores adentram a investigação como variáveis importantes que são, porém, essencialmente externas àquelas da opressão das mulheres.

As opressões de classe e sexo aparecem, assim, como fenômenos autônomos dentro da perspectiva de dois sistemas. Apesar das afirmações de uma “relação inextricável” entre o sexo e a classe, essa perspectiva não especifica o caráter de tal relação. Logicamente falando, porém, a perspectiva de dois sistemas implica que a opressão das mulheres segue um curso que é, essencialmente, independente daquele da opressão de classe. E sugere, ainda mais, que é um certo mecanismo sistemático, peculiar à divisão sexual do trabalho e distinto da luta de classes característica de um certo modo de produção, o que constitui a força principal por trás da opressão das mulheres. Em outras palavras, de acordo com a teoria implícita na perspectiva de dois sistemas, há dois motores poderosos que comandam o desenvolvimento da história: a luta de classes e a luta entre os sexos.

Enquanto a perspectiva de dois sistemas começa com os fenômenos empiricamente dados cujas correlações são interpretadas por meio de uma cadeia de inferências plausíveis, a perspectiva da reprodução social começa de um posicionamento teórico – notadamente, que a luta de classes sobre as condições de produção representa a dinâmica central do desenvolvimento social em sociedades caracterizadas pela exploração. Nessas sociedades, o trabalho excedente é apropriado por uma classe dominante e uma condição essencial de produção é a constante presença e renovação de uma classe subordinada de produtores diretos compromissados com o processo de trabalho. Normalmente, a substituição geracional providencia a maioria dos novos trabalhadores necessários para reabastecer a classe, e a capacidade das mulheres em dar à luz, portanto, possui um papel crítico na sociedade de classes.

Do ponto de vista da reprodução social, a opressão das mulheres nas sociedades de classes está baseada na sua posição diferenciada em relação ao processo de substituição geracional. As famílias constituem uma forma social historicamente específica através da qual a substituição geracional geralmente acontece. Nas sociedades de classes, “não se pode absolutamente falar de ‘a’ família”, como diz Marx, pois as famílias estão localizadas de forma amplamente variada dentro da estrutura social[2]. Nas classes proprietárias, as famílias geralmente agem como portadoras e transmissoras de propriedade, embora possam também ter outros papeis. Aqui, a opressão das mulheres segue no seu papel de manutenção e herança da propriedade. Nas classes subordinadas, as famílias geralmente estruturam o local no qual os produtores diretos são mantidos e reproduzidos; tais famílias também podem participar diretamente na produção imediata. A opressão feminina nessas classes deriva do envolvimento das mulheres em processos que renovam os produtores diretos, assim como o seu envolvimento na produção. Enquanto a opressão das mulheres nas sociedades de classe é experienciada em muitos níveis, ela se assenta, no final, nessas fundações materiais. A resolução específica dessa opressão está sujeita a investigação histórica, não teórica.

Apresentada de forma cristalizada, a distinção entre a perspectiva de dois sistemas e a perspectiva da reprodução social é relativamente clara. De ambas, a perspectiva da reprodução social é a que mais está de acordo com a análise de Marx do funcionamento do modo capitalista de produção, particularmente como elaborado n’O capital. A demarcação entre as duas perspectivas tem sido, porém, sempre confundida, ainda que a presença de posições contraditórias constitua a base de grande parte da ambiguidade que marca o trabalho teórico produzido pelo movimento socialista. A perspectiva de dois sistemas tem, de forma geral, prevalecido sobre a perspectiva da reprodução social, apesar de esforços periódicos em derivar uma análise da questão da mulher da obra de Marx.

A origem de Engels, por exemplo, baseia-se muito na perspectiva de dois sistemas. Em primeiro lugar, tal perspectiva é presente na própria organização do livro. Ao atribuir um capítulo separado à família, Engels implicitamente sugere que a categoria de família – cuja formação geral por meio da divisão sexual do trabalho o autor toma como dada – pode ser considerada virtualmente de forma autônoma. Além disso, ele considera a divisão sexual do trabalho como fundamentada biologicamente e inflexível historicamente, enquanto todos os outros fenômenos em A origem possuem um fundamento social. Dessa forma, Engels concede um papel central à divisão sexual do trabalho na família, mas o coloca em um limbo teórico. Similarmente, a opressão das mulheres parece emergir da natureza independente da própria divisão sexual do trabalho. As considerações do prefácio em relação ao caráter duplo da produção tornam essas dualidades explícitas. A perspectiva de dois sistemas toma a forma geral, em A origem, de uma ênfase na divisão sexual do trabalho e na família como fenômenos extremamente importantes, mas que não estão firmemente assentados na reprodução social como um todo.

A caracterização de A origem da unidade familiar como a “unidade econômica da sociedade” com a implicação adicional de que “a sociedade moderna é uma massa cujas moléculas são as famílias individuais” ilustra ainda mais a dependência implícita da obra com relação à perspectiva de dois sistemas. Em tais afirmações, Engels mantém a família separada da reprodução social, mas peculiarmente atribui um papel constitutivo dominante à primeira. A maneira pela qual a unidade familiar funciona dentro da reprodução social, além da função, no caso da classe dominante, de assegurar propriedade, nunca é claramente definida. Na mesma linha, Marx, assim como Engels, falou diversas vezes da divisão sexual do trabalho na família como uma espécie de versão em miniatura da divisão social do trabalho na sociedade. “A família moderna contém em seu cerne não apenas a escravidão (servitus) mas também a servidão feudal, já que desde o início tem relação com os serviços agrícolas. Ela contém em miniatura todos os antagonismos que mais tarde se desenvolveriam na sociedade e em seu Estado”. Engels também utiliza tal imagem para descrever as relações entre os sexos. “Na família, [o homem] é o burguês e a mulher representa o proletariado”. Já que nem Marx nem Engels especificam, de nenhuma maneira precisa, a natureza de tal “representação” – isto é, a relação entre a família como “germe” e o todo social – tais imagens funcionam como paralelos simplistas. Na melhor das hipóteses, são metáforas perigosas; na pior, empréstimos acríticos da filosofia política burguesa do período anterior[3].

Finalmente, a discussão em A origem sobre a família como um local de luta entre os sexos está de acordo com a perspectiva de dois sistemas. Enquanto Engels destaca o surgimento simultâneo dos conflitos de classe e de sexo, ele não estabelece uma clara conexão entre os dois. Ambos os desenvolvimentos permanecem fenômenos historicamente paralelos, cuja relação teórica é melhor caracterizada como sendo de autonomia. No caso da família proprietária, a opressão das mulheres tem a sua fonte na necessidade do marido de preservar e transmitir a sua propriedade privada. Obviamente, a ausência de propriedade privada vem, então, acompanhada pela ausência de conflito entre os sexos. Na verdade, como Engels é forçado a reconhecer, as mulheres ocupam uma posição subordinada nos lares dos sem-propriedade. Engels não oferece nenhuma base teórica para tal opressão histórica, embora o conceito de “produção [sistemática] dos próprios seres humanos” presente no prefácio aponte para um mecanismo distinto.

A origem não negligencia inteiramente a perspectiva da reprodução social. Ela está implícita quando Engels afirma que a participação na produção pública oferece um caminho à emancipação da mulher proletária, quando ele insiste que o trabalho doméstico deve ser convertido numa indústria pública, ou quando ele argumenta que a unidade familiar deve cessar em ser a unidade econômica da sociedade. Tais declarações funcionam como compreensões importantes, mas que precisam ser teoricamente sustentadas. Por que a participação na produção pública oferece uma pré-condição para a igualdade social? Que significa dizer que esse aspecto da família como unidade econômica precisa ser abolido? Em qual sentido é a família uma unidade econômica? Como todas essas problemáticas se conectam à necessidade da conversão do trabalho doméstico em indústria pública? Infelizmente, Engels não consegue providenciar a base teórica necessária para responder essas questões propriamente. Marx havia apresentado o esboço de uma teoria sobre a reprodução da força de trabalho e a classe trabalhadora que poderia, pelo menos a princípio, ter constituído o ponto de partida. Mas tal desenvolvimento sério da obra de Marx representou um esforço para o qual Engels não possuía tempo e, talvez, motivação. Com a publicação de A origem, a combinação contraditória que Engels faz entre as perspectivas de dois sistemas e de reprodução social torna-se, com efeito, um fundamento teórico instável para toda investigação socialista subsequente sobre a assim-chamada questão da mulher.

A distância não-reconhecida entre as duas perspectivas se alargou na medida em que o conflito entre o marxismo e o revisionismo se intensificou na Segunda Internacional. Enquanto Engels havia dado um jeito de combinar ambas as perspectivas em um único texto, ainda que de forma estranha, análises subsequentes tenderam a enfatizar mais claramente uma em detrimento da outra. Em geral, a perspectiva de dois sistemas tornou-se dominante entre a ala reformista do movimento socialista, enquanto uma versão crua da perspectiva da reprodução social sustentou os esforços ocasionais feitos pelos reformistas para tratar da questão das mulheres.

Por sua vez, por trás do amontoado de dados em A mulher e o socialismo de August Bebel, há um quadro conceitual profundamente de acordo com a perspectiva de dois sistemas. A posição do livro dentro dos termos dessa perspectiva é estabelecida, primeiramente, pela suposição de Bebel de que a categoria “mulher” representa um ponto de partida teórico apropriado. Apesar das frequentes declarações de que “a solução para a questão da mulher coincide completamente com a solução da questão social”, Bebel trata o fenômeno da opressão das mulheres como analiticamente separável do desenvolvimento social como um todo. Ele argumenta, além disso, que a dependência individual das mulheres sobre os homens é a origem da sua opressão na sociedade de classes, mas falha em situar tal dependência dentro da reprodução social total. Em resumo, A mulher e o socialismo de Bebel coloca a divisão sexual do trabalho e a relação de dependência entre as mulheres e os homens, tomadas como dados empiricamente óbvios e a-históricos (ao menos até o advento da sociedade socialista), no centro do problema da opressão das mulheres.

Colocada lado a lado com a confusão teórica e política que permeia A mulher e o socialismo, a análise de Engels em A origem possui considerável força e clareza. Ao invés de ziguezaguear erraticamente entre as assim-chamadas questões social e da mulher, ele se concentra nos fenômenos sociais que determinam a posição da mulher em dada sociedade e nas condições que podem levar a mudanças dessa posição. Ele faz o seu melhor, por assim dizer, para delinear a relação entre os fatores envolvidos na opressão das mulheres – a família, a divisão sexual do trabalho, as relações de propriedade, a sociedade de classes e o Estado – às vezes apontando também para o conceito mais completo de reprodução da força de trabalho implícito na perspectiva da reprodução social. Embora à discussão de Engels em A origem falte gravemente a poderosa compreensão política e teórica que Marx talvez tenha colocado em pauta, ela vai muito além dos esforços de Bebel em A mulher e o socialismo.

O panfleto A questão da mulher dos Avelings confirma, de forma ainda mais clara que A mulher e o socialismo de Bebel, a predominância da perspectiva de dois sistemas dentro do movimento socialista. Como Bebel, os autores afirmam que a base da opressão das mulheres é a dependência econômica, mas falham em explicar o como, deslocando, efetivamente, o problema da subordinação das mulheres da sua posição dentro do desenvolvimento social. A conceitualização do panfleto acerca da posição da mulher, dada principalmente em termos de amor, sexualidade, casamento, divórcio e dependência dos homens, reforça, por um lado, essa demarcação teórica entre as mulheres, a família e a divisão sexual do trabalho, e, por outro, a reprodução social. Finalmente, a formulação explícita do panfleto acerca das opressões de classe e sexo como fenômenos paralelos, engendrando lutas paralelas cuja relação nunca é discutida, revela mais agudamente a sua base na perspectiva de dois sistemas.

No nível teórico, a crescente força do reformismo na Segunda Internacional encontrou, sem dúvidas, na consolidação da perspectiva de dois sistemas a base velada de todos os esforços socialistas em tratar da questão das mulheres. Contra essa posição, a ala à esquerda do movimento socialista apresentou um desafio implícito, senão ainda não desenvolvido, que estava de acordo com as premissas gerais da perspectiva da reprodução social. Assim, na sua abordagem da problemática da subordinação das mulheres, Zetkin e Lênin, ambos líderes da luta contra o reformismo, rejeitam a categoria universal de “mulher” ou “família” como pontos de partida teóricos. Ao invés disso, eles focam na especificidade da opressão das mulheres em classes diferentes num dado modo de produção.

No seu discurso de 1896 para o Congresso do Partido, por exemplo, Zetkin insiste que o caráter da assim-chamada questão da mulher nas sociedades capitalistas é dependente da classe. Ela identifica três distintas questões relacionadas às mulheres, todas demandando uma resolução, mas diferenciadas de acordo com a fonte da opressão; a natureza das demandas por igualdade; e os obstáculos para cumprir tais demandas. Ao recusar considerar a questão da mulher como uma abstração sem classe para ser resolvida no futuro, ela sugere um programa extensivo de atividade organizacional. No nível prático, a oposição de Zetkin ao reformismo tomou a forma de um comprometimento em desenvolver um trabalho socialista entre as mulheres de todas as classes – trabalho que apoiaria reformas sem cair no reformismo e, simultaneamente, manteria o objetivo revolucionário firme no horizonte. Em contraste com muitos dos seus contemporâneos do movimento socialista, ela viu a luta por mudanças na relação entre as mulheres e os homens como uma tarefa para o presente, não para um futuro socialista indefinido.

Com mais precisão teórica que Zetkin, porém menos originalidade e comprometimento, Lênin coloca a problemática da subordinação das mulheres no contexto da reprodução da força de trabalho na sociedade de classes. A sua repetida ênfase no papel decisivo do trabalho doméstico reflete um entendimento, aumentado pela experiência da Revolução Bolchevique, da base material da opressão das mulheres. O seu entendimento do funcionamento da reprodução social capitalista o permite esboçar as linhas de uma relação teoricamente coerente entre as opressões de classe e sexo, por meio do conceito de direitos democráticos. Tais posicionamentos constituem a base teórica que sustenta a clareza estratégica de Lênin – nunca implementada de forma suficiente na prática pelos bolcheviques – sobre a importância de trabalho específico entre as mulheres, sobre a necessidade de organizações de massa de mulheres que juntassem mulheres de todas as classes, e sobre o problema de combater o atraso ideológico entre os homens. Tomadas juntas, as observações de Zetkin e Lênin sobre as mulheres oferecem um uso específico e rudimentar da perspectiva da reprodução social para analisar a opressão das mulheres na sociedade capitalista.

No contexto do movimento moderno de mulheres na América do Norte e na Europa Ocidental, especificamente a sua ala feminista socialista, a tensão entre ambas as perspectivas tomou uma nova forma. Enquanto o movimento socialista do fim do século XIX procurou, principalmente, diferenciar as suas posições acerca do problema da opressão das mulheres daquelas do feminismo liberal, o feminismo socialista contemporâneo desenvolveu-se tanto numa resposta simpática às visões do feminismo radical quanto às falhas tanto do feminismo liberal quanto da tradição socialista. É essa posição avançada, em partes, que permitiu ao movimento feminista socialista realizar várias contribuições significativas.

De certa forma, o trabalho teórico produzido dentro da análise feminista socialista recria as características principais da perspectiva de dois sistemas. Por exemplo, teóricas feministas socialistas tendem, não importam as intenções, separar a reprodução social da questão das divisões do trabalho e da autoridade de acordo com o sexo[4]. Além disso, elas permanecem, geralmente, incapazes de situar a opressão das mulheres teoricamente em termos de classe e do modo de produção. E oferecem uma ênfase unilateral acerca da família e das questões de sexualidade e dependência pessoal. Por último, as feministas socialistas não providenciaram uma base teórica para a sua ênfase estratégica no papel integral da organização autônoma de mulheres de todos os setores da sociedade na luta pelo socialismo. Dessa forma, as feministas socialistas frequentemente reproduzem as fragilidades da perspectiva de dois sistemas, mas os seus trabalhos também apontam para um entendimento mais adequado teoricamente da questão da opressão das mulheres. Em particular, elas insistem na centralidade de se atingir um entendimento materialista da situação da mulher dentro da família – como a que dá à luz, cuida das crianças e realiza o trabalho doméstico – como chave para o problema da persistência da opressão das mulheres em diferentes modos de produção e classes. É aqui que as teóricas feministas socialistas realizaram contribuição especialmente interessantes. Aquelas que focam na questão em termos da teoria de Marx da reprodução social renovaram, além disso, os elementos da perspectiva da reprodução social, e aprofundaram-na de uma maneira que não pôde ser feita nem por Marx nem pela tradição socialista. Para resumir, a seriedade política do envolvimento das feministas socialistas no trabalho teórico, alimentada pela militância contínua das mulheres nos movimentos sociais ao redor do mundo tanto reproduziu quanto transformou a tensão entre ambas as perspectivas. Por um lado, o feminismo socialista revive a coexistência contraditória das duas perspectivas teóricas, que tiveram a sua origem com Marx e Engels, apenas para desaparecer sob a pressão do revisionismo. Por outro lado, ele se move para muito além das limitações estabelecidas no período anterior.

A teoria do feminismo socialista recapitula, então, mesmo sem saber, certas falhas da tradição socialista clássica, ao mesmo tempo em que lança as bases para corrigi-las. Como muito do movimento socialista do final do século XIX e início do XX, adotou, querendo ou não, certas posições que são, essencialmente, estranhas em relação ao seu compromisso com o marxismo e a revolução social. Contrariamente àquele movimento anterior, porém, não se fechou a uma perspectiva revolucionária, e, portanto, possui todos os interesses em transcender tal contradição.


[1] Essa terminologia revisa a utilizada em Lise Vogel, Questions on the Woman Question (1979), a qual opunha o “argumento da família” com o “argumento da produção social”. O termo “perspectiva de dois sistemas” é adotado a partir de Iris Young, Socialist Feminism and the Limits of Dual Systems Theory (1980). Sou grata a Nancy Holmstrom pela discussão que clarificou tanto a terminologia quanto a análise deste capítulo. Para um paralelo interessante, conferir a discussão entre duas posições acerca da assim-chamada questão nacional em James Blaut, Nationalism as an Autonomous Force (1982).

[2] Karl Marx, Friedrich Engels, A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 181.

[3] Sobre a família como “unidade econômica da sociedade”, conferir Friedrich Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado (2019), pp. 74-75. Sobre a família como “forma celular da sociedade civilizada”, conferir ibid., pp. 61, 68; ver também Karl Marx, Friedrich Engels, A ideologia alemã (2007), pp. 36-37. Para uma análise similar, conferir Beverly Brown, Natural and Social Division of Labour: Engels and the Domestic Labour Debate (1978), pp. 38-41.

[4] Mais recentemente, por exemplo, Young sabiamente desmonta o dualismo de muito da teoria feminista socialista, mas então sugere uma ênfase na “análise da divisão generificada do trabalho” que ameaça recrear o próprio dualismo que ela deseja evitar. YOUNG, Iris. Beyond the Unhappy Marriage: A Critique of the Dual Systems Theory, in Sargent (ed.), I98I.

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