O capitalismo tornou a identidade gay possível. Agora precisamos destruí-lo

Entrevista com John D’Emilio realizada por Meagan Day

Tradução de Natanael Alencar para a Jacobin Brasil. Colocamos a reprodução integral do artigo publicado no site da Jacobin.

A identidade gay tornou-se viável graças à face emancipatória do capitalismo: a libertação do indivíduo da estrutura familiar. Mas essa liberdade sexual não foi automática — precisou de décadas de luta militante. Hoje, precisamos de mais enfrentamentos para combater os aspectos opressivos do capitalismo, que impedem que homossexuais e heterossexuais vivam vidas totalmente livres.

Um grupo de libertação gay da Northwestern University participa de uma manifestação contra a Guerra do Vietnã em Washington DC. (Wikimedia Comons)

John D’Emilo escreveu o primeiro rascunho de Capitalismo e a Identidade Gay em 1979. Originalmente entregues como um discurso e depois publicadas como um ensaio, as ideias ali organizadas foram parcialmente informadas pelo intenso autodidatismo político de D’Emilio em um grupo de leitura de homens gays marxistas nos anos que surgiu o Stonewall e a crise de AIDS.

Ativistas gays estudando juntos O Capital de Marx não é algo comum na história norte-americana, mas fenômenos desse tipo ocorreram com mais frequência durante alguns anos da década de 1970, quando ativistas logo entenderam que o anticapitalismo era um componente auto-evidente da libertação gay. A par com essa política, Capitalismo e a Identidade Gay termina com uma exortação que se opõe não apenas à opressão homofóbica, estritamente definida, mas à exploração e à desigualdade econômicas mais amplas.

Capitalismo e a Identidade Gay traz uma história marxista da emergência da moderna subjetividade gay, firmada na análise das mudanças dos modos de produção e de condições materiais. Essa interpretação da nossa história é algo incomum nos círculos políticos LGBT hoje em dia. Também é incomum a ideia de que a homofobia moderna põe homossexuais como bodes expiatórios pelas transformações sociais advindas do capitalismo, nem todas elas tão libertadoras como a separação entre sexualidade e reprodução. Essas ideias merecem sérias considerações da nova geração de ativistas LGBT de esquerda, muitos dos quais já são socialistas.

Jhon D’Emilio é o autor de vários livros incluindo Lost Prophet: The Life and Times of Bayard Rustin and Sexual Politics e Sexual Communities: The Making of a Homosexual Minority in the United States, 1940–1970. A editora da Jacobin, Meagan Day, conversou com D’Emilio sobre a história paralela do capitalismo e da identidade gay — com foco na homossexualidade, embora a discussão toque em questões sobre transgeneridade — e porquê, apesar do capitalismo ter gerado novas possibilidades para expressão sexual, nós devemos nos empenhar em transcendê-lo.


MD | Quando o capitalismo introduziu um novo modo de produção baseado no trabalho assalariado, deslocou a família como o principal lugar de produção para a maioria das pessoas. Em Capitalismo e a Identidade Gay você afirma que essa transformação resultou na expansão das possibilidades de ação e de construção de uma vida em torno da atração pelo mesmo sexo, o que, eventualmente, levou à emergência das comunidades, identidades e políticas gays.

Vamos navegar por toda essa ideia, mas vamos começar estabelecendo como era antes dessa transformação ter ocorrido. Qual era o modo de produção anterior à introdução do capitalismo? Podemos limitar isso aos Estados Unidos para lidar com esse tópico enorme de forma mais razoável.

JD | Na sociedade colonial que formou os Estados Unidos — não no interior do sistema de escravidão, mas dentro do sistema de livre trabalho — você tem basicamente um sistema no qual a maior parte das pessoas produz o que consome, ao invés de trabalhar para outros por um salário e com ele sair e comprar coisas que precisam para sobreviver. Nesse tipo de sistema, onde a produção e o consumo são tão interconectados, as pessoas realmente sobrevivem através da criação de unidades reprodutivas que produzem a sua própria força de trabalho na forma de filhos.

Em um mundo assim, não é que não existam pessoas que possuam desejos por outras do mesmo sexo. Até onde sabemos, você pode encontrar evidências na história e em diferentes culturas que existiram pessoas que tiveram atração pelo mesmo sexo. Mas não era possível construir uma vida em torno desses sentimentos. Hoje, pensamos sobre a sexualidade como esta coisa muito pessoal que tem por base aqueles a quem nos sentimos atraídos e quem amamos. Mas o arranjo da sexualidade no mundo colonial que estou descrevendo era guiado pela criação de força de trabalho necessária para a sobrevivência.

Na medida em que você se move pelo século XIX, percebe que os Estados Unidos são palco de uma transição rumo às formas de produção capitalistas, nas quais mais e mais pessoas estão saindo, ganhando a vida trabalhando para outras pessoas e trazendo um salário para casa. No começo, a maioria que fez isso foram os homens, enquanto as mulheres ainda estão trabalhando muito em casa, cozinhando, fazendo roupas, entre outras atividades. Contudo, a principal consequência é que, por causa da maior quantidade de pessoas que passam a trabalhar por salários, mais pessoas podem viver fora de uma unidade familiar reprodutiva. Isso gera novas oportunidades para pessoas que possuem fortes desejos pelo mesmo sexo.

Dadas as desigualdades de gênero, raça e classe, essa mudança não tem o mesmo impacto para todos ao mesmo tempo. Homens brancos que trabalhavam por um salário são as primeiras pessoas capazes de construir uma vida fora de uma unidade familiar heterossexual. Mas, por volta do fim do século XIX e certamente no começo do século XX, encontram-se evidências de muitos tipos diferentes de pessoas vivendo de acordo com seus desejos pelo mesmo sexo.

Por exemplo, conforme o movimento progressista começa a estabelecer casas de assentamento, você encontra mulheres que não precisam mais estar casadas e criar filhos para sobreviver vivendo juntas em longas relações. De maneira semelhante, quando afroamericanos começaram a  abandonar o sistema de meeiro e chegaram às cidades onde podiam realizar trabalho assalariado, tem-se evidências do que hoje nós chamamos de gays e lésbicas em comunidades negras em centros urbanos.  

MD | Outra mudança que acontece nesse período, você explica, é que a função ideológica do casamento se transforma. Quando a expansão do trabalho assalariado desloca a unidade familiar reprodutiva como o ambiente de produção que sustenta a vida, o casamento não desaparece. Na verdade, o casamento permanece muito importante na organização da sociedade, mas muda de significado e se torna um lugar mais pessoal de realização emocional. Concomitantemente, quando os filhos deixam de ser necessários para a sobrevivência, eles começam a representar o amor familiar e a felicidade doméstica. Eles se tornam o símbolo de um casamento bem sucedido.

Uma vez que o casamento muda de significado dessa forma para as pessoas, questões críticas são colocadas para todos na sociedade: que tipo de intimidade você deseja? Em que tipo de associação você vai se sentir realizado? Na medida em que essas questões são feitas coletivamente, em massa, novas respostas se tornam possíveis.

Nesse contexto, você começa a ver uma acentuação da ideia de atração pelo mesmo sexo. Não é que o desejo homossexual não existisse antes, mas ganha mais foco porque os desejos individuais íntimos e de atração em geral são enfatizados, sejam eles heterossexuais ou homossexuais ou quaisquer outros. Compreendi seu argumento corretamente?

JD | Correto. Na história norte-americana, percebe-se que por volta da década de 1920, a linguagem e a ideologia do casamento começam a mudar. Não é que as pessoas não tivessem mais filhos, mas o casamento vai sendo cada vez mais algo que você escolhe com base no amor e na intimidade, ao invés de necessidade e apelos econômicos, com a produção de filhos como força de trabalho.

Transformações nas condições materiais de vida continuaram permitindo o desenvolvimento de diferentes compreensões ideológicas do casamento, da família, da intimidade e da sexualidade. Conforme avançamos no tempo, particularmente em direção ao baby boom do meio do século, não apenas escolha, atração e desejo figuram no núcleo de maneira em que as pessoas se casam, mas o casamento em si torna-se menos necessário para as pessoas expressarem amor e afeto.

Dessa forma, há uma quantidade crescente de pessoas no mundo pós 1960 vivendo juntas por uma parte da vida antes de se casarem, ou talvez sequer casando, algo que não era real no século anterior. Não é coincidência que este seja um mundo em que as mulheres estão tendo cada vez mais em empregos assalariados. Eventualmente, você termina em uma situação em que muitos heterossexuais estão em relações intimas sem serem casados ou terem filhos, algo que abre ainda mais espaço para imaginar uma vida que possa se construir ao redor da atração pelo mesmo sexo porque, de fato, não é diferente do que muitos heterossexuais estão fazendo.

MD | Vamos voltar à transição específica que ocorreu no início do século XX. Primeiro, como você escreve em seu ensaio, as comunidades gays começaram a aparecer nas cidades, mas em grande parte secretas, informais e difusas. Então, no momento propício, algo realmente marcante aconteceu:a Segunda Guerra Mundial. Você poderia falar sobre o papel dela na transformação da vida urbana e da identidade gay em algo mais estável, visível e concreto?   

JD | Por um lado, a Segunda Guerra é compreendida como uma era de heroísmo de combate e vitória contra a tirania e de retorno à nação que se torna próspera, o que levou ao baby boom do final dos anos 1940, 1950 e do começo dos anos 1960. O que poderia ser mais heterossexual do que o baby boom pós guerra e a cultura que ele originou?

Porém, a Segunda Guerra também realizou algo a mais. Tirou 16 milhões de jovens rapazes de suas cidades, vizinhanças, longe de suas famílias e de tudo que eles conheciam até então, colocando-os em um ambiente completamente masculino. Obviamente que eles podiam sair e passear, e sabemos que isso implicou numa atividade heterossexual abundante. Mas esse mundo de jovens rapazes também abriu espaço para que a expressão sexual ocorresse. Nesse contexto, homens que tinham forte atração por outros encontraram-se com mais facilidade.

Algo similar acontece, embora não na mesma escala, com as jovens mulheres. Muitas delas também participavam da economia doméstica de guerra. Algumas deixavam suas pequenas cidades e se instalavam em ambientes urbanos para trabalhar. Muitas viviam em albergues apenas para mulheres e as fábricas eram quase todas ocupadas por trabalhadoras porque os homens estavam lutando na guerra. Jovens mulheres que desejavam outras mulheres estão em uma posição em que se torna mais fácil dar vazão a esses desejos.

Quando a guerra acabou, alguns desses rapazes e jovens mulheres não voltaram para casa. Eles permaneceram nas grandes cidades para as quais haviam se mudado ou onde aportaram no fim da guerra. Um dos resultados desse processo é a criação de pequenas comunidades — na época, chamavam de subcultura — de pessoas com desejos pelo mesmo sexo que se tornaram mais livres para exercê-lo.   

MD | E não eram cidades aleatórias. Eram cidades que foram importantes para os esforços de guerra como Nova York, Los Angeles e São Francisco, que acabaram florescendo como centros da vida gay nas décadas seguintes. Nesse sentido, é importante notar o papel do trabalho assalariado aqui também porque quando as pessoas podem se manter com seus salários, não existe uma obrigação de voltar para os lugares de que vieram ou de se casar. Ainda há pressão social para fazer essas coisas, mas elas não são necessárias para a sobrevivência.

Isso leva à criação de comunidades gays mais estáveis, o que por sua vez estabelece as bases para a política e a identidade gay. Você poderia falar um pouco sobre a transição nas décadas após a Segunda Guerra Mundial?

JD | Foi um processo complexo. Por um lado, a Segunda Guerra abriu todas essas possibilidades, como mencionei há pouco. Contudo, por outro lado, poucos anos depois, tivemos o forte anticomunismo Macartista, a tal da “ameaça vermelha”. Paralelo a isso, um outro pânico moral que é descrito pelos historiadores de hoje como “a ameaça lavanda”, no qual a opressão aos gays se torna muito mais evidente e intensa, com forças policiais e o FBI perseguindo pessoas, criando listas, invadindo bares e coisas do tipo.

Então, em 1950, temos, simultaneamente, um semi-submundo do desejo pelo mesmo sexo emergindo nas cidades ao passo que essas mesmas pessoas precisam tomar muito cuidado. A palavra que o mundo usa hoje é “dentro do armário”. Havia bares gays, mas muitas pessoas que frequentavam usavam pseudônimos até que confiassem o suficiente em alguém. É nesse contexto de expansão de liberdade e de opressão aberta que se inicia o ativismo organizado em São Francisco e Los Angeles, como a “Sociedade de Mattachine” e o “Filhas de Bilitis”.  

Ocasionalmente, durante esse período, há um ativismo que se origina de um plano de fundo político e está mais disposto a radicalizar suas análises. Porém, para a maior parte dos anos 1950 e 1960, o ativismo era muito cuidadoso. Se você observa as capas de algumas revistas produzidas por essas organizações, você nunca sabe se está olhando para uma revista gay ou lésbica.

No contexto do Movimento pelos Direitos Civis, alguns ativistas gays começaram a se tornar um pouco mais militantes e se expuseram, mas era um número pequeno. O momento perfeito foi Stonewall, no fim dos anos 1960, quando uma parcela considerável da geração já está nas ruas protestando e desafiando tudo, tanto política quanto culturalmente, e um movimento LGBT mais expressivo sai do armário e passa a existir. 

MD | Há um paralelo que quero fazer aqui entre a Grande Migração, quando afro-americanos saíram do Sul rural onde eram em sua maioria meeiros e foram para cidades para se tornarem empregados assalariados — não apenas cidades no Norte e Oeste, mas também no próprio Sul, como Selma, Birmingham e Montgomery.

O sociólogo Jack Bloom argumenta que essa transformação foi uma pré-condição do que veio a ser o Movimento pelos Direitos Civis, de forma análoga que a ida para as cidades e para o mercado de trabalho capitalista também foi uma pré-condição para a política gay. Sendo objetiva, o capitalismo exerce uma pressão enorme sob os trabalhadores e se baseia em sua exploração. Mas o modo de produção moderno tem talhado caminhos para algumas pessoas seguirem uma vida mais cívica ou política, ao menos em comparação a uma vida negra empobrecida nas propriedades do Sul à moda Jim Crow, ou uma pessoa que é atraída pelo mesmo sexo que precisa casar e ter filhos para ajudar nos trabalhos do campo para sobreviver.

E aqui existe um outro paralelo: assim como o Movimento pelos Direitos Civis gerou “resistência em massa” de racistas brancos, a emergência da política gay provocou reações intensas e de um tipo com maior apelo popular e, em muitas maneiras, mais virulenta que “a ameaça lavanda”. Como você descreveria aquela nova onda de homofobia?

JD | Existem duas versões diferentes da politização da homofobia que surgiu no século XX. A primeira emerge no contexto da Guerra Fria dos anos 1950 e 1960. Era institucionalizada. Se refletiu em leis de sodomia, vigilância do FBI, proibições federais ao emprego. Esse é o tipo de homofobia que o movimento de libertação gay dos anos 1970 começou a desafiar. Não é que uma grande mudança tenha ocorrido nos anos 1970, mas existem ativistas LGBT com visibilidade o suficiente para que leis de sodomia fossem repelidas, alguns estatutos de direitos civis fossem decretados em nível local e etc..

Mas quando isso começa acontecer, um novo ciclo de homofobia emerge de fora dos poderes constituídos. É o que foi chamado por nós, da esquerda setentista, de “nova direita” ou “direita radical”. Era geralmente muito conectada ao evangelicalismo cristão e intimamente associada com a mudança política que houve no Sul, em que homens brancos do Partido Democrata foram para o Partido Republicano. Ela era uma resposta reacionária não apenas ao ativismo LGBT mas também às ondas feministas que estavam militando pelo controle de natalidade, aborto até a Emenda de Direitos Iguais. Essa nova onda de anti-feminismo e homofobia ajudaram a criar o Partido Republicado com o qual vivemos hoje.

MD | Penso que o Partido Republicano se moldou como vanguarda do conservadorismo através, principalmente, de puro e simples oportunismo eleitoral. Entretanto, essas pautas estão disponíveis porque existe na população um pânico enorme de que as velhas maneiras desapareçam.

E as tradições sociais estão realmente em perigo. Vem à mente aquela passagem do Manifesto Comunista de Marx e Engels na qual eles notam que o capitalismo transforma o mundo, “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Com isso, eles não estão fazendo exatamente um julgamento. Eles estão observando de forma mais ou menos neutra que o capitalismo é uma forma continuamente mutável, causando reviravoltas no mundo social, recriando-o, remodelando-o eternamente.

Isso tem implicações positivas para algumas pessoas em algumas áreas de suas vida como, por exemplo, para gays no quesito de atração pelo mesmo sexo. Eu obviamente considero um desenvolvimento muito positivo que eu possa amar livre e abertamente uma mulher.

Mas é igualmente verdade que o capitalismo desestrutura famílias e desestabiliza a vida de maneiras extremamente negativas para muitas pessoas, especialmente na sua interação neoliberal, caracterizada por privatização, austeridade e exploração sem limites — o que significa que os custos de vida ficam cada vez mais altos, junto estagnação de salários e diminuição de serviços sociais. Isso torna difícil sustentar famílias e outros laços sociais, bem como manter vivas as tradições que dão ao indivíduo um senso de significado e pertencimento ao mundo.

Liberdade para dar vazão à atração pelo mesmo sexo e para construir uma vida ao redor dela é meramente uma entre muitas expressões desse fenômeno revolucionáro mais amplo. Para mim, a variante moderna da homofobia é na verdade uma reação aos efeitos colaterais negativos do mesmo fenômeno. Os gays — e, cada vez mais, pessoas transgênero, que têm passado ao lugar de bode expiatório —  são acusadas de causar a dissolução da ordem social tradicional sob o capitalismo e de todas as coisas ruins ligadas a isso.

Outra forma de pensar sobre isso é que os gays são o objeto da transformação social radical trazida pelo capitalismo. Para mim, é uma análise mais sofisticada de como a homofobia se encaixa no capitalismo do que a explicação padrão de que ela é apenas outra forma de divisão, o que também é verdade.

JD | Sim, se você olha para a homofobia que surge na direita nas décadas de 1970 e 1980 e para a linguagem na qual é expressada, fica evidente que a motivação dela é a preocupação com o declínio ou a ruína da família nuclear. Bem, a queda ou o enfraquecimento da família nuclear é um fenômeno real. Mas não ocorreu por causa do movimento de libertação gay. Aconteceu por causa do crescimento contínuo do capitalismo, que desfez as condições materiais que previamente mantinham as famílias juntas e não ofereceu reparação suficiente.

Por exemplo: mesmo sem conexão com o feminismo, o capitalismo viu nas mulheres uma força de trabalho, dando às elas a escolha de casarem-se ou não. A segunda onda do feminismo parte desse ponto, não o contrário. Para o bem ou para o mal, o capitalismo rompe com essa velha ordem na qual as famílias nucleares heterossexuais representam tudo em termos de como a vida se estrutura. E então, quando as pessoas temem essa mudança, apontam o dedo não para a sociedade capitalista ou para o sistema de produção capitalista, mas para os ativistas gays, lésbicas e feministas.

MD | Nos anos 1970, você era parte de um grupo de leitura marxista gay. Parece que naquele tempo o ativismo gay sentiu alguma responsabilidade em ser anticapitalista ou acreditou que a libertação gay era um sinônimo de anticapitalismo. Ao longo das décadas seguintes, essa associação se perdeu quase completamente. O que aconteceu com ela?

JD | O que ficou conhecido como libertação gay tomou forma inicial nos calcanhares do radicalismo da esquerda no final dos anos 1960, seja nos movimentos de justiça racial, nas versões do feminismo radical ou no movimento anti-guerra. Por estar sintonizado com aqueles movimentos, passou a alimentar o impulso de desafiar o que era chamado de “sistema”.

Então, quando Stonewall aconteceu, já haviam protestos e levantes acontecendo por todo o país. Jovens já estavam politizados e, nesse contexto, se multiplicavam rápida e radicalmente. A primeira organização formada após Stonewall, a Frente de Libertação Gay, tem esse nome por causa da Frente de Libertação Nacional no Vietnam, que estava lutando contra o imperialismo norte-americano no sudeste da Ásia. Portanto, há uma postura esquerdista bastante ampla, ao invés de puramente ideológica, que permeia os primeiros movimentos de libertação gay e lésbica.

Isso não dura muito. Não dura muito mesmo. No começo dos anos 1970, a maioria desses grupos de libertação gay e de lésbicas radicais não dura mais do que uns três ou quatro anos. E eles são substituídos por outros grupos que seguem militando, mas com uma pauta única, como organizações identitárias. O que quero dizer é que você tem organizações que estavam nas ruas lutando, desafiando a polícia e provocando manifestações, mas tudo que elas queriam era igualdade de direitos para pessoas gays e lésbicas. A militância continuou por um tempo, mas as coalizões de frentes múltiplas que enfatizavam como o capitalismo oprime a todos se esvaíram. Nesse quesito, o ativismo LGBT, infelizmente, mas não surpreendentemente, reflete as tendências mais amplas da sociedade. 

A militância cresceu e encolheu com o passar das décadas. Temos um pico durante a crise de AIDS com o ACT UP. E começamos a ver um distanciamento da defesa de uma pauta única quando ACT UP e outros grupos começam a abraçar questões como assistência médica para todos. Porém, na maior parte dos últimos 50 anos, o esquerdismo tem sido uma partícula, ao invés de ser o componente central do ativismo queer.

MD | Em Capitalismo e Identidade Gay você insiste em uma política gay anticapitalista, e mesmo com o passar das décadas você ainda o faz. Contudo, se o capitalismo é responsável pela sobrevivência e eventual sucesso das pessoas fora da família nuclear heterossexual, então os  socialistas gays estão sendo desleiais ao sistemas que os tornaram possíveis? Dito de outro modo, porque as pessoas gays deveriam ser anticapitalista, dada a história que detalhamos aqui? 

JD | Primeiro, porque o capitalismo em si não desfaz a homofobia nem a transfobia. Isso só é obtido através de ativismo. Tivemos que lutar por todas as nossas conquistas, por cada passo que avançamos. Além disso, sob o capitalismo, algumas pessoas podem criar a vida que querem para si mesmas, mas a maioria não pode, mesmo que existam novas liberdades sexuais.

A maioria das pessoas, incluindo a maioria das pessoas LGBT, vive com algum nível de insegurança, no qual a habilidade de sobreviver economicamente está sempre em risco. Você está perigosamente perto de ter suas economias esvaziadas ou de não poder mais pagar a hipoteca, o aluguel ou ter de recorrer a algum bandejão social. O capitalismo proveu as condições materiais que permitiram que essa identidade emergisse e se solidificasse, mais não ofereceu segurança para a maioria dessas pessoas. 

O aspecto transformador do capitalismo é que o sistema de propriedade privada e lucro ao longo de um grande período de tempo permitiu que a sociedade tivesse um potencial de eficiência produtiva maior. Mas, no fim das contas, requereu menos trabalho para que a sociedade sobreviva. Contudo, precisamente porque os meios de produção são privados e operam visando o lucro que muitas pessoas precisam empenhar a mesma quantidade de trabalho – só que agora com muito menos segurança.

Por um lado, o fato do capitalismo permitir que o indivíduo opere no interior da sociedade abre certas possibilidades. Mas, para a grande maioria de nós, a natureza individualizada do capitalismo cria um senso permanente de insegurança, uma incerteza sobre quem cuidará de nós quando os problemas chegarem. O que o socialismo oferece é um senso de responsabilidade coletiva com o bem-estar individual. 

Sim, continuaremos sendo indivíduos e ainda teremos liberdades, incluindo liberdades sexuais. Mas não seremos mais indivíduos tentando aguentar sozinhos esse sistema desigual e explorador. O capitalismo criou novas possibilidades materiais. O que o socialismo é capaz de criar é um sistema de valores diferente que definitivamente se importa com o indivíduo muito mais do que o capitalismo.

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