O capitalismo e a identidade gay, por John D’Emilio

Tradução por Gustavo Guimarães, publicado originalmente no site LavraPalavra, o qual nos cedeu autorização para republicá-lo aqui.

“O capitalismo e a identidade gay foi publicado pela primeira vez em 1983, e originalmente constituía uma versão revisada de uma palestra dada por D’Emilio ao redor dos anos de 1979 e 1980. Viria a consistir uma parte de seu livro Sexual Politics, Sexual Communities: The Making of a Homosexual Minority in the United States (em tradução livre, Política Sexual, Comunidades Sexuais: A Formação de uma Minoria Homossexual nos Estados Unidos), na qual a atual tradução se baseia. O capitalismo e a identidade gay é um incontestável clássico da literatura LGBT marxista, enormemente influente nos EUA e na Europa no que diz respeito a uma compreensão unitária entre opressão LGBT e capitalismo; e recuperado intensamente nas últimas décadas pela nova tradição do Marxismo LGBT [Queer Marxism].”

É importante ressaltar, para evitar interpretações equivocadas ou distorcidas, que tal texto não é — e nunca teve a pretensão de ser — uma explicação universal e global a respeito da base material da opressão LGBT sob o capitalismo. Pelo contrário, se trata de uma explicação e exposição histórica específica sobre o surgimento das identidades gay e lésbica no contexto da emergência do capitalismo estadunidense; e que, no entanto, por sua rica aplicação do método e teorização, tem valor histórico, teórico e político para os comunistas do mundo todo.

Observação preliminar de tradução: no inglês, tanto homens quanto mulheres podem ser denominados como “gays”, e se trata de um uso comum desse adjetivo. Em português, é muito incomum a referência a mulheres como “gays”. Nesse texto, de certa forma, quando D’Emilio se refere à identidade gay no geral, também está se referindo às mulheres que identificaríamos na América Latina estritamente como lésbicas. Por outro lado, às vezes o autor se refere a identificação de mulheres e homens como “gays”, e, para adequar mais exatamente o texto ao contexto da nossa língua, a tradução adicionou “lésbicas” logo em seguida. Notas do autor estão enumerados ao longo do texto. Notas da tradução estão indicadas por colchetes e logo em seguida uma letra e um asterisco.


Para homens gays e lésbicas, os anos 1970 foram anos de conquistas significativas. Os movimentos pela libertação gay e pela libertação das mulheres transformaram o ambiente sexual da nação. Centenas de milhares de mulheres e homens homossexuais saíram do armário e afirmaram abertamente o erotismo homossexual. Conseguimos a revogação das leis de sodomia em metade dos estados, uma remoção parcial da exclusão de gays e lésbicas dos empregos federais, a proteção dos nossos direitos civis em uma dúzia de cidades, a inclusão dos direitos gays na plataforma do Partido Democrata e a eliminação da homossexualidade da lista de doenças mentais da profissão psiquiátrica. A subcultura gay masculina se expandiu e se tornou cada vez mais visível nas grandes cidades, e as feministas lésbicas tomaram a vanguarda da construção de instituições e de uma cultura alternativas que tentaram encarnar uma visão libertadora do futuro.

Nos anos 1980, entretanto, com o ressurgimento de uma direita ativa, gays e lésbicas lidam com o futuro de forma cautelosa. Nossas vitórias aparecem como tênues e frágeis; a liberdade relativa dos últimos anos parece muito recente para ser permanente. Em algumas partes da comunidade lésbica e gay, um sentimento de ruína e perdição está crescendo: analogias com os EUA de McCarthy, onde “pervetidos sexuais” eram um alvo preferencial da Direita; e com a Alemanha Nazista, onde gays e lésbicas eram enviados a campos de concentração, aparecem com cada vez mais frequência. Em todo lugar há uma sensação de que novas estratégias serão necessárias se quisermos preservar nossos ganhos e caminhar rumo a novos.

Eu acredito que uma teoria nova, mais precisa da história gay deve fazer parte deste empreendimento político. Quando o movimento pela libertação gay começou no final dos anos 1960, nós — gays e lésbicas — não tínhamos nenhuma história que pudéssemos utilizar para moldar nossos objetivos e nossa estratégia. Nos anos subsequentes, ao construir um movimento sem um conhecimento de nossa história, inventamos, ao invés disso, uma mitologia. Essa história mítica se sustentava em experiências pessoais, com as quais nos remontávamos para trás no tempo. Por exemplo, a maioria das lésbicas e dos gays nos anos 1960 primeiro descobriram seus desejos homossexuais em isolado e sem conhecimento uns dos outros, e sem recursos para nomear e entender o que sentiam. Dessa experiência, construímos um mito: o de que o silêncio, a invisibilidade e o isolamento constituíam as características essenciais da vida gay tanto no passado como no presente. Além do mais, porque enfrentamos tantas leis, políticas públicas e crenças culturais opressivas, nós projetávamos isso em uma imagem de um passado abismal: até o surgimento do movimento de libertação gay, lésbicas e homens gays foram sempre as vítimas de uma opressão sistemática, indiferenciada e terrível.

Esses mitos têm limitado nossa perspectiva política. Eles têm contribuído, por exemplo, para uma excessiva dependência em uma estratégia de “saída do armário” — se todo homem gay e lésbica nos Estados Unidos saísse do armário, a opressão gay acabaria — e tem nos permitido ignorar as formas institucionalizadas pelas quais a homofobia e o heterossexismo são reproduzidos. Eles têm encorajado, por vezes, um desespero incapacitante, especialmente em momentos como o atual: como poderemos desfazer uma opressão gay tão pervasiva e imutável?

Há outro mito histórico que goza de aceitação quase universal no movimento gay, o mito do “homossexual eterno”. O argumento funciona mais ou menos assim: homens gays e lésbicas sempre existiram e sempre vão existir. Nós estamos em todos os lugares; não apenas atualmente, mas ao longo da história, em todas as sociedades e em todas as épocas. Esse mito teve uma função política positiva nos primeiros anos do movimento de libertação gay. No começo dos anos 1970, quando enfrentamos uma ideologia que ou negava nossa existência ou nos definia como indivíduos psicopatas, ou aberrações da natureza, era empoderador afirmar que “estamos em todo lugar”. Mas, nos últimos anos, esse mito tem nos confinado tão estreitamente quanto as teorias médicas mais homofóbicas, e prendido nosso movimento eternamente no mesmo lugar.

Aqui, eu desejo questionar esse mito. Pretendo sustentar que gays e lésbicas nem sempre existiram. Pelo contrário, eles e elas são um produto da história e surgiram em uma era histórica específica. Sua emergência está associada com as relações sociais do capitalismo — mais especificamente, seu sistema de trabalho livre —, que permitiram que um grande número de homens e mulheres, no final do século XX, se denominassem gays ou lésbicas; se enxergassem como parte de uma comunidade de homens e mulheres similares, e se organizassem politicamente com base nessas identidades1. Finalmente, desejo sugerir algumas lições e conclusões políticas que podemos traçar a partir dessa visão da história.

Quais são, então, as relações entre o sistema de trabalho livre [assalariado] do capitalismo e a homossexualidade? Primeiramente, precisamos rever alguns aspectos primordiais do capitalismo. Sob o capitalismo, os trabalhadores são “livres” de duas maneiras: nós temos a liberdade de procurar por um emprego. Possuímos nossa habilidade de trabalhar e temos a liberdade de vender nossa força de trabalho por um salário a qualquer pessoa disposta a comprá-la. Também estamos livres da propriedade de qualquer coisa, exceto de nossa força de trabalho. A maioria de nós não possui a terra ou as ferramentas necessárias para produzir o que precisamos, mas ao invés disso temos de trabalhar para nos mantermos vivos. Então, se nós somos livres para vender nossa força de trabalho em um sentido positivo, estamos também livres, no sentido negativo, de qualquer outra alternativa. Essa dialética — a constante interação entre a exploração e algum grau de autonomia — informa toda a história daqueles que viveram ou têm vivido sob o capitalismo.

À medida que o capital — dinheiro utilizado para ganhar mais dinheiro — se expande, esse sistema de trabalho livre também se difunde. O capital se expande de diversas maneiras. Geralmente, ele se expande dentro do mesmo lugar, transformando pequenas empresas em empresas maiores, mas ele também se expande tomando novas áreas da produção: a tecelagem de roupas, por exemplo, ou a assadura de pães. Finalmente, o capital se expande geograficamente. Nos Estados Unidos, o capitalismo inicialmente criara raízes no Nordeste do país, em uma época onde a escravidão era o sistema dominante no Sul, e quando sociedades nativas, indígenas, não-capitalistas ocupavam a metade oeste do continente. Durante o século XIX, o capital se propagou do Atlântico para o Pacífico, e, no século XX, o capital estadunidense penetrara quase todas as partes do mundo.

A expansão do capital e a difusão do trabalho assalariado provocaram uma transformação profunda na estrutura e na função da família nuclear, da ideologia da vida familiar e do significado das relações heterossexuais. São essas mudanças na família que se relacionam mais diretamente à aparição de uma vida gay coletiva.

Os colonos brancos da Nova Inglaterra do século XVII estabeleceram vilas estruturadas ao redor de uma economia doméstica, composta de unidades familiares que eram basicamente autossuficientes, independentes e patriarcais. Homens, mulheres e crianças cultivavam a terra de propriedade do chefe masculino da casa. Apesar da existência de uma divisão do trabalho entre homens e mulheres, a família como um todo era uma verdadeira unidade interdependente de produção: a sobrevivência de cada membro dependia da cooperação de todos. O lar era um local de trabalho, onde mulheres transformavam produtos agrícolas brutos e crus em alimentos para consumo diário; onde elas faziam as vestimentas, o sabão e as velas; e onde maridos, esposas e crianças trabalhavam juntos para produzir os bens que consumiam.

Por volta do século XIX, esse sistema de produção doméstica havia entrado em declínio. No Nordeste, à medida que capitalistas mercantis investiam o dinheiro acumulado via comércio na produção de mercadorias, o trabalho assalariado se tornava cada vez mais comum. Para as mulheres do século XIX, a necessidade de trabalhar em troca de salários raramente permanecia após o casamento; para os homens, a condição proletária se tornou permanente.

A família, portanto, não era mais uma unidade independente de produção. Mas apesar de não ser mais independente em termos produtivos, a família ainda funcionava com base na interdependência entre seus membros. Como o capitalismo ainda não havia se expandido muito longe [nos EUA], como ainda não havia tomado — ou socializado — a produção de bens de consumo, as mulheres ainda realizavam certos tipos de trabalho produtivo necessário no lar. Muitas famílias não produziam mais grãos, mas as esposas ainda assavam os pães com a farinha que compravam com os salários de seus maridos; ou, ainda faziam vestimentas para suas famílias com os fios e tecidos que compravam no mercado. Por volta da metade dos anos 1800, o capitalismo já tinha destruído a autossuficiência econômica de muitas famílias, mas não a dependência mútua de seus membros.

Essa transição de uma economia doméstica, baseada no trabalho familiar, para uma economia de trabalho livre-assalariado capitalista plenamente desenvolvida aconteceu muito devagar, através de quase dois séculos. Em 1920, bastante tarde no desenvolvimento histórico, 50 por cento da população estadunidense ainda vivia em comunidades de menos de 2500 pessoas. A ampla maioria das pessoas negras no começo do século XX ainda vivia fora da economia de trabalho livre, em um sistema de colonato, servidão por contrato ou arrendamento que dependia do trabalho familiar. Não apenas o cultivo independente como um meio de vida ainda existia para milhões de americanos, mas, além disso, em vilarejos e cidades pequenas, as mulheres ainda continuavam a cultivar e processar as comidas, a fazer roupas e a participar de outras formas de produção doméstica.

Mas, para aquelas pessoas que sentiram o impacto dessas mudanças, a família adquiriu um novo significado, como uma unidade afetiva, uma instituição que produzia não bens, mas satisfação emocional e felicidade. Por volta dos anos 1920, entre a classe média branca, a ideologia que envolvia a família a descrevia como o meio pelo o qual homens e mulheres construíam relacionamentos satisfatórios, mutuamente engrandecedores e criavam um ambiente educador e estimulante para as crianças. A família se tornou o cenário para uma “vida pessoal”, rigorosamente distinta e desconectada da esfera pública, do mundo do trabalho e da produção2.

O significado das relações heterossexuais também mudou. Na Nova Inglaterra colonial a taxa de natalidade era, em média, de mais de sete crianças por mulheres de idade fértil. Homens e mulheres precisavam do trabalho das crianças. A produção de uma prole era tão necessária para a sobrevivência quanto a produção de grãos. Sexo estava atrelado à procriação. Os Puritanos não celebravam a heterossexualidade, mas sim o casamento; eles condenavam toda expressão sexual fora do vínculo matrimonial e não diferenciavam rigorosamente a sodomia da fornicação heterossexual.

Por volta dos anos 1970, entretanto, a taxa de natalidade havia caído para menos de dois filhos. Com a exceção do ‘baby boom’ (explosão de natalidade) logo após a Segunda Guerra Mundial, o declínio tem sido contínuo por dois séculos, de forma semelhante e paralelamente à difusão das relações capitalistas de produção. Ele aconteceu mesmo quando o acesso às invenções contraceptivas e ao aborto era sistematicamente limitado. O declínio da natalidade tem incluído todos os segmentos da população — famílias urbanas e rurais, pessoas brancas e negras, não-brancas e WASPs [a*], a classe média e a classe trabalhadora.

Conforme se difundia o trabalho assalariado e se socializava a produção, se tornava possível libertar a sexualidade do imperativo da procriação. Ideologicamente, a expressão heterossexual tornou-se um meio de estabelecer intimidade, promover felicidade e experimentar prazer. Ao despojar o lar de sua independência econômica e promover a separação da sexualidade da procriação, o capitalismo criou as condições que permitem que alguns homens e mulheres organizem sua vida pessoal ao redor da atração erótica/emocional a seu próprio sexo. Tornou-se possível a formação de comunidades urbanas de lésbicas e homens gays, e, mais recentemente, de uma política baseada na identidade sexual.

Evidências a partir de registros de tribunais da Nova Inglaterra colonial indicam que comportamentos homossexuais masculinos e femininos existiam no século XVII. Comportamento homossexual, no entanto, é diferente de identidade homossexual. Em termos simples, não havia exatamente um “espaço social” no sistema colonial de produção que permitisse que homens e mulheres fossem gays/lésbicas. A sobrevivência estava estruturada ao redor da participação em uma família nuclear. Existiam certos atos homossexuais nos quais indivíduos participavam — sodomia, no caso dos homens; “lascividade” no caso das mulheres —, mas a família era tão pervasiva e universal que a sociedade colonial não possuía sequer a categoria do ‘homossexual’ ou da ‘lésbica’ para descrever uma pessoa. É bem possível que alguns homens e algumas mulheres experimentassem uma atração mais forte direcionada ao seu próprio sexo do que em relação ao sexo oposto — na verdade, alguns casos de tribunais coloniais se referem a homens que persistiam em sua atração “anti-natural” —, mas ninguém conseguia vislumbrar ou formar um estilo de vida a partir dessa preferência. O Massachusetts colonial tinha até mesmo leis proibindo adultos não-casados de viver fora das unidades familiares3.

Em torno da segunda metade do século XIX, essa situação estava visivelmente se transformando à medida que o sistema de trabalho livre capitalista se consolidava. Apenas quando os indivíduos começaram a tirar sua sobrevivência de seu trabalho assalariado, no lugar de uma unidade familiar interdependente, foi possível para o desejo homossexual se converter em uma identidade pessoal — uma identidade baseada na habilidade de se permanecer fora da família heterossexual e de construir uma vida pessoal baseada na atração do indivíduo pelo seu mesmo sexo. Ao redor do final do século, uma classe (no sentido de grupo) de homens e mulheres — que reconheciam seu interesse erótico no seu próprio sexo, o viam como um traço que os separava da maioria e buscavam outros como eles — já existia. Essas primeiras vidas gays e lésbicas vieram de um espectro social muito amplo: funcionários públicos e executivos de empresas, balconistas de lojas de departamento e professores universitários, operadores de fábricas, pastores e pessoas do clero, advogados, cozinheiros, empregados domésticos, trabalhadores ambulantes e ricos ociosos; homens e mulheres, pessoas negras e brancas, imigrantes e naturais do país.

Nesse período, gays e lésbicas começaram a inventar maneiras de se encontrar entre si, e de manter uma vida em grupo. Já no começo do século XX, grandes cidades possuíam bares gays masculinos. Homens gays ocupavam e vigiavam áreas movimentadas e costeiras, como a rua do Parque Riverside na Cidade de Nova York e o Parque Lafayette em Washington. Na capital do país, e na cidade de St. Louis (Missouri), balls [b*] de drag anuais reuniam um grande número de homens gays negros. Casas de banho públicas e centros locais da Associação Cristã de Moços (ACM, ou YMCA) [c*] viraram pontos de encontro para homossexuais masculinos. Lésbicas formaram sociedades literárias e clubes sociais fechados. Algumas mulheres da classe trabalhadora “se passavam” por homens para obter trabalhos com salários maiores e para conseguir viver com outras mulheres — casais lésbicos que apareciam para o mundo como marido e mulher. Dentro das faculdades das universidades femininas, dos centros comunitários, das associações profissionais e clubes formados por mulheres, uma mulher poderia encontrar relacionamentos íntimos da duração de uma vida, apoiada por uma rede de amigas lésbicas. Por volta dos anos 1920 e 1930, metrópoles como Nova York e Chicago continham bares lésbicos. Esses padrões de vida puderam evoluir porque o capitalismo permitia que os indivíduos sobrevivessem para além dos confins da família4.

Simultaneamente, as definições ideológicas do comportamento homossexual se transformaram. Médicos desenvolveram teorias sobre a homossexualidade, descrevendo-a como uma condição, como algo que era inerente a uma pessoa, uma parte de sua “natureza”. Essas teorias não representavam rupturas científicas, elucidações de áreas antes não-descobertas do conhecimento; em vez disso, eram na verdade uma resposta ideológica a uma nova forma de organização da vida pessoal. A popularização do modelo médico, por sua vez, afetou a consciência das mulheres e homens que experimentavam o desejo homossexual, de modo que passaram a se definir por meio de suas vidas eróticas5.

Essas novas formas — a identidade gay e os modelos de vida em grupos — também refletiam a diferenciação das pessoas de acordo com gênero, raça e classe que é tão presente nas sociedades capitalistas. Entre as pessoas brancas, por exemplo, os homens gays tiveram tradicionalmente mais visibilidade do que as lésbicas. Essa situação em parte se origina da divisão entre a esfera pública masculina e a esfera privada feminina. Ruas, parques e bares, especialmente durante a noite, eram “espaços masculinos”. Ainda assim, a maior visibilidade dos homens gays brancos também refletia seu maior número. Os estudos de Kinsey durante os anos 1940 e 1950 encontraram um número significativamente maior de homens com histórias predominantemente homossexuais do que de mulheres; uma situação causada — eu defenderia — pelo fato de que o capitalismo havia atraído muito mais homens do que mulheres para a força de trabalho [ativa], e com salários mais altos. Homens podiam construir uma vida pessoal independente da vinculação afetiva/sexual com o sexo oposto com mais facilidade,  enquanto as mulheres estavam mais propensas a permanecerem economicamente dependentes dos homens. Kinsey também encontrou uma forte correlação positiva entre anos de estudo e atividade lésbica. Mulheres brancas com ensino superior, muito mais capazes de se sustentar sozinhas do que suas irmãs da classe trabalhadora [d*], poderiam sobreviver mais facilmente sem relacionamentos íntimos com homens6.

Entre os trabalhadores imigrantes do começo do século XX, redes de parentesco estreitamente entrelaçadas e uma ética de solidariedade familiar colocavam restrições à autonomia individual que tornavam o estilo de vida gay [gayness] uma opção difícil de se perseguir. Em contraste, por razões não totalmente evidentes, as comunidades urbanas negras pareciam relativamente tolerantes em relação à homossexualidade. A popularidade entre elas, nos anos 1920 e 1930, de músicas com temas gays e lésbicos — como “B. D. Woman”, “Prove It to Me”, Sissy man” e “Fairy Blues” — sugere uma abertura em relação à expressão homossexual diferente da maioria dos brancos. Entre homens do Oeste rural nos anos 1940, Kinsey encontrou uma extensa incidência de comportamentos homossexuais, mas, em contraste com os homens das grandes metrópoles, pouquíssima consciência da identidade gay. Assim, ainda que o capitalismo exercesse uma influência homogeneizadora por meio da transformação gradual de mais indivíduos em trabalhadores assalariados e da separação deles de suas comunidades tradicionais, diferentes grupos de pessoas também eram afetados sob diferentes formas7.

As decisões de certos homens e mulheres de seguir expressando e praticando sua preferência pelo mesmo sexo, junto de uma nova consciência de que essa preferência os fazia diferentes, levaram à formação de uma subcultura urbana de gays e lésbicas. Porém, ao menos até e durante os anos 1930, essa subcultura permaneceu rudimentar, instável e oculta, difícil de ser encontrada. Como emergiu, então, a comunidade gay complexa e bem-desenvolvida que já existia quando o movimento pela libertação gay explodiu? A resposta é encontrada na época da Segunda Guerra Mundial, quando as transformações cumulativas de várias décadas coalesceram-se em uma nova forma, qualitativamente diferente.

A guerra perturbou severamente os padrões tradicionais das relações de gênero e de sexualidade, e criou temporariamente uma nova situação erótica que fomentava a expressão homossexual. Ela arrancou milhões de jovens homens e mulheres — cujas identidades sexuais estavam apenas começando a se formar — de suas casas, para fora de seus vilarejos e pequenas cidades, para fora do ambiente heterossexual da família, e os colocou em situações e ambientes segregados por sexo — como os locais que abrigavam soldados americanos da Segunda Guerra, as seções femininas do Exército, a Reserva Feminina da Reserva Naval estadunidense [e*], como as pensões femininas para trabalhadoras que haviam se realocado para procurar emprego. A guerra libertou milhões de homens e mulheres dos cenários onde a heterossexualidade era normalmente imposta. Para homens e mulheres que já eram gays ou lésbicas, a guerra propiciou uma oportunidade para conhecer pessoas iguais a eles. Outros podiam se tornar gays [ou lésbicas] por causa da liberdade temporária para a exploração da sexualidade que a guerra proveu8.

Lisa Ben, por exemplo, saiu do armário durante a guerra. Ela deixou sua pequena cidade na Califórnia, onde ela foi criada, foi para Los Angeles para arrumar emprego, e viveu em uma pensão feminina. Lá, ela conheceu pela primeira vez lésbicas que a levaram a bares gays/lésbicos e a apresentaram a outras mulheres lésbicas. Donald Vining era um jovem com muito desejo homossexual e poucas experiências gays. Ele se mudou para Nova York durante a guerra e trabalhou em um grande centro da ACM [YMCA]. Seu diário revela numerosas aventuras eróticas com soldados, marinheiros, fuzileiros navais, e civis no centro onde ele trabalhava, assim como no clube residencial masculino onde ele morava, e também em parques, bares e cinemas. Muitos soldados americanos da Segunda Guerra ficavam em cidades portuárias, como Nova York, em centros da ACM como aquele onde Vining trabalhava. Em suas histórias orais sobre homens gays em São Francisco, focadas nos anos 1940, Allan Bérubé descobriu que os anos da guerra foram essenciais para o processo de formação de uma comunidade gay masculina na cidade. Lugares tão diferentes como San José, Denver e a Cidade do Kansas tiveram seus primeiros bares gays nos anos quarenta. Mesmo a repressão severa poderia ter efeitos colaterais positivos. Pat Bond, uma lésbica de Davenport, Iowa, juntou-se ao Corpo Feminino do Exército durante os anos 1940. Quando foi pega por um expurgo de centenas de lésbicas do Exército no Pacífico, ela não retornou ao Iowa. Ela permaneceu em São Francisco e se tornou parte de uma comunidade de lésbicas. Quantos outros homens não tiveram experiências semelhantes? Quantas outras cidades também não experimentaram um rápido crescimento de comunidades gays e lésbicas9?

Os homens e as mulheres homossexuais dos anos 1940 foram pioneiros. Suas decisões de seguir e viver os seus desejos construíram a base para uma subcultura urbana de homens gays e lésbicas. Ao longo dos anos 1950 e 1960, a subcultura gay cresceu e se estabilizou, de modo que as pessoas saindo do armário nesta época podiam mais facilmente encontrar outras mulheres lésbicas e homens gays do que no passado. Jornais e revistas publicaram artigos descrevendo a vida gay masculina. Literalmente centenas de romances com temas lésbicos foram publicados10. Psicanalistas reclamaram da nova facilidade com que pacientes gays masculinos encontravam parceiros sexuais. E a subcultura gay não era mais encontrada apenas nas grandes metrópoles. Bares lésbicos e gays existiam em lugares como Worcester, no Massachusetts; Buffalo, no estado de Nova York; Columbia, na Carolina do Sul, e Des Moines, no estado do Iowa. A vida gay, durante os anos 1950 e 1960, se tornou um fenômeno nacional. Por volta do período próximo à explosão da Rebelião de Stonewall em Nova York, em 1969 — o evento que deu início definitivo ao movimento de libertação gay —, nossa situação dificilmente era de silêncio, invisibilidade e isolamento. Um movimento de libertação massificado, de caráter popular e de base, pôde se formar da noite pro dia precisamente porque já existiam comunidades de lésbicas e gays.

Embora a existência de uma comunidade gay fosse uma pré-condição necessária para a emergência de um movimento de massas, a opressão sofrida por lésbicas e gays fora a força que impulsionara o movimento para a sua existência efetiva. À medida que a subcultura se expandia e se tornava mais visível na era pós-Segunda Guerra, a opressão pelo Estado se intensificava, tornando-se mais sistemática e inclusiva. A Direita utilizava os “pervertidos sexuais” como bode expiatório durante a era Macartista [the McCarthy era]. O governo Eisenhower impôs um banimento total à contratação de mulheres e homens homossexuais pelo governo federal e por empresas prestadoras de serviços governamentais. Expurgos de lésbicas e gays do Exército cresceram rispidamente. O FBI instituiu uma vigilância generalizada de locais de encontro gay e de organizações lésbicas e gays, como as Filhas de Bilitis [Daughters of Bilitis] e a Sociedade de Mattachine [Mattachine Society]. Os Correios colocavam rastreadores na correspondência de homens gays e passavam evidências de atividade homossexual para os empregadores. Departamentos de Costumes urbanos (seções da polícia dedicadas a reprimir comportamentos considerados ‘moralmente reprováveis’) invadiam casas privadas, faziam varreduras em bares lésbicos e gays, encurralavam homens gays em lugares públicos, e fomentavam caças às bruxas locais. O perigo envolvido em ser gay [ou lésbica] crescia, mesmo que as condições que possibilitavam a identidade gay houvessem sido fortalecidas. O movimento pela libertação gay foi uma resposta a esta contradição.

Apesar de lésbicas e gays terem ganhado vitórias significativas nos anos 1970, e aberto algum grau de espaço social seguro para a existência gay, dificilmente podemos afirmar ter desferido um golpe fatal no heterossexismo e na homofobia. Até se poderia argumentar que a imposição da opressão gay meramente trocou de lugares, transferindo-se, de certa forma, do Estado para a arena da violência extralegal, na forma de crescentes ataques físicos abertos contra lésbicas e gays. E, conforme nossos movimentos têm crescido, eles têm gerado uma intensa Reação (no sentido de reacionarismo) [backlash] que ameaça eliminar todos os nossos ganhos. De forma significativa, essa oposição da Nova Direita tem tomado a forma de um movimento “pró-família”. Como é que o capitalismo, cuja estrutura tornou possível a emergência da identidade gay e a criação de comunidades gays urbanas, parece incapaz de aceitar gays e lésbicas em seu meio? Por que o heterossexismo e a homofobia parecem tão resistentes às nossas investidas?

As respostas, creio eu, podem ser encontradas na relação contraditória do capitalismo com a família. De um lado, como argumentei anteriormente, o capitalismo tem gradualmente enfraquecido a base material da família nuclear, tirando-lhe as funções econômicas que cimentavam os laços entre os membros da família. À medida que mais adultos foram sendo arrastados para o sistema de trabalho livre, e à medida que o capital expandiu suas esferas produtivas até o momento em que ele, de fato, produz como mercadorias a maior parte dos bens e serviços que necessitamos para a sobrevivência, as forças que impulsionavam homens e mulheres para as famílias e os mantinham por lá foram enfraquecidas. Por outro lado, a ideologia da sociedade capitalista consagrou a família como a fonte de todo amor, afeto e segurança emocional, o lugar onde a nossa necessidade por relacionamentos humanos estáveis e íntimos é satisfeita.

Essa elevação da família nuclear à proeminência na vida pessoal não é acidental. Toda sociedade precisa de estruturas para a reprodução e criação das crianças, mas as possibilidades não estão limitadas à família nuclear. Ainda assim, a família privatizada se conforma bem às relações de produção capitalistas. O capitalismo socializou a produção enquanto continuou sustentando que os produtos do trabalho socializado pertencem aos donos da propriedade privada. De certa forma, e de várias maneiras, o cuidado e criação das crianças também foram socializados no decorrer dos últimos dois séculos, com escolas, a mídia, grupos homólogos, e empregadores assumindo funções que anteriormente pertenciam aos pais. Mesmo assim, a sociedade capitalista continua a sustentar que a reprodução e a criação das crianças são tarefas privadas, que as crianças “pertencem” a seus pais, que exercem seus direitos de propriedade. Ideologicamente, o capitalismo leva as pessoas às famílias heterossexuais; cada geração amadurece tendo internalizado um modelo heterossexista de intimidade e relacionamentos pessoais.  Materialmente, o capitalismo enfraquece os vínculos que uma vez mantiveram as famílias juntas, de modo que seus membros experimentem uma crescente instabilidade no lugar onde lhes foi prometido, e do qual eles esperam, felicidade e segurança emocional. Além disso, embora o capitalismo tenha derrubado o alicerce material da vida familiar, lésbicas, homens gays e feministas heterossexuais se tornaram bodes expiatórios para a instabilidade social do sistema.

Essa análise, se persuasiva, tem implicações para nós hoje. Ela pode afetar nossa percepção de nossa identidade, nossa formulação de objetivos políticos, e nossas decisões sobre estratégia.

Eu argumentei que as identidades lésbica e gay — e suas comunidades — são historicamente criadas, são o resultado de um processo de desenvolvimento capitalista que abrangeu muitas gerações. Um corolário deste argumento é que nós não somos uma minoria social fixa composta por toda a história de uma certa porcentagem da população. Hoje há mais de nós do que havia cem anos atrás, mais de nós do que havia quarenta anos atrás. E é muito provável que existam mais homens gays e lésbicas no futuro. Afirmações feitas por gays e não-gays de que a orientação sexual é fixada em uma idade precoce, desde pequeno (a), de que um grande número de gays e lésbicas visíveis na sociedade, na mídia e nas escolas não terá qualquer influência sobre as identidades sexuais dos jovens, estão erradas. O capitalismo criou as condições materiais para que o desejo homossexual se expressasse como um componente central das vidas de alguns indivíduos; agora, nossos movimentos políticos estão transformando consciências, criando as condições ideológicas que tornam mais fácil para as pessoas fazerem essa escolha.

Com certeza, esse argumento confirma os piores medos e as retóricas mais raivosas de nossos oponentes políticos. Mas nossa resposta deve ser um questionamento da crença subjacente de que as relações homossexuais são ruins, uma segunda escolha desprezível. Não devemos escorregar para a defesa oportunista de que a sociedade não precisa se preocupar com tolerar-nos, visto que apenas homossexuais se tornam homossexuais. No melhor dos cenários, uma análise de grupo minoritário [e não universal] e uma estratégia de direitos civis dialogam com aqueles de nós que já somos gays. Mas deixa que a juventude de hoje — os gays e as lésbicas de amanhã — internalize modelos heterossexistas que podem demorar uma vida toda para serem eliminados.

Eu também argumentei que o capitalismo levou à separação entre sexualidade e procriação. O desejo sexual humano não mais precisa ser limitado a imperativos reprodutivos, à procriação; sua expressão tem progressivamente entrado no reino da escolha. Lésbicas e homossexuais masculinos encarnam mais claramente o potencial dessa cisão, já que nossas relações homossexuais estão inteiramente fora de uma armação procriativa. Em última instância, a aceitação de nossas escolhas eróticas depende do grau em que a sociedade está disposta a afirmar a expressão sexual como uma forma de lazer [a form of play], positiva e engrandecedora. Nosso movimento pode ter começado como a luta de uma “minoria”, mas o que agora deveríamos “libertar” é um aspecto da vida pessoal de todas as pessoas — a expressão sexual11.

Finalmente, eu sugeri que a relação entre o capitalismo e a familía é fundamentalmente contraditória. Por um lado, o capitalismo continua a enfraquecer o alicerce material da vida familiar, tornando possível que indivíduos vivam fora da família, e que uma identidade gay e lésbica se desenvolva. Por outro lado, ele precisa empurrar homens e mulheres para famílias, ao menos por tempo o suficiente [e em número o suficiente] para reproduzir a próxima geração de trabalhadores. A elevação da família à proeminência ideológica garante que a sociedade capitalista irá reproduzir não apenas as crianças, mas também o heterossexismo e a homofobia. No sentido mais profundo, o capitalismo é o problema12.

Como evitaremos permanecer os bodes expiatórios, as vítimas políticas da instabilidade social gerada pelo capitalismo? Como poderemos tomar essa relação contraditória e a utilizar para caminhar rumo à libertação?

Gays e lésbicas existem em um terreno social para além dos limites da família nuclear heterossexual.  Nossas comunidades se formaram nesse espaço social. Nossa sobrevivência e nossa libertação dependem da nossa habilidade de defender e expandir esse terreno, não só para nós mesmos, mas para todos. Isso significa, em parte, apoio a pautas e demandas que ampliem as oportunidades para se viver fora das unidades familiares heterossexuais tradicionais: pautas como a pela disponibilidade e pelo amplo acesso ao aborto e  pela ratificação da Emenda dos Direitos Iguais [Equal Rights Amendment], por ações afirmativas para pessoas não-brancas e para mulheres, por creches e outros serviços sociais essenciais inteiramente financiados publicamente, por pagamentos decentes e dignos, pelo pleno emprego, pelos direitos da juventude — em outras palavras, programas e pautas que propiciem uma base material para a autonomia pessoal.

Os direitos da juventude são especialmente críticos. A aceitação das crianças como dependentes, como propriedade de seus pais, é tão profundamente enraizada que nós mal conseguimos imaginar o que significaria tratá-las como seres humanos autônomos, particularmente no terreno da expressão e escolha sexual. Entretanto, até que isso aconteça, a libertação gay continuará fora de nosso alcance.

Mas a autonomia pessoal é apenas metade da história. A instabilidade das famílias e o senso de efemeridade e insegurança que as pessoas estão experimentando agora em seus relacionamentos pessoais são problemas sociais reais que precisam ser tratados. Nós precisamos de soluções políticas para essas dificuldades da vida pessoal. Tais soluções não devem vir na forma de uma versão radical da posição pró-família, ou de algumas propostas de esquerda para o fortalecimento da família. Os socialistas geralmente não respondem à exploração e à desigualdade econômica do capitalismo industrial conclamando um retorno ao cultivo familiar e à produção artesanal. Nós reconhecemos que o vasto crescimento da produtividade, que o capitalismo tornou possível por meio da socialização da produção, é um dos seus aspectos progressistas. De forma similar, não deveríamos estar tentando atrasar o relógio e voltar no tempo para uma era mítica da família feliz.

Nós precisamos sim, entretanto, de estruturas e programas que ajudarão a dissolver as fronteiras que isolam a família, particularmente aquelas que privatizam a criação das crianças. Precisamos de creches comunitárias ou sobre gestão dos trabalhadores, moradias onde privacidade e comunidade coexistam, instituições de bairro — de clínicas médicas a centros de performance — que ampliem a unidade social que cada um de nós identifica como um local seguro. Conforme criamos estruturas que vão além da família nuclear e que provém um sentimento de pertencimento, a família declinará em importância. Cada vez menos ela parecerá conter, ou ameaçar, a nossa segurança emocional.

A esse respeito, homens gays e lésbicas estão bem-situados socialmente para possuir um papel especial neste processo. Já excluídos das famílias, como a maioria de nós está, nós tivemos de criar, para nossa própria sobrevivência, redes de apoio que não dependiam dos vínculos sanguíneos ou da permissão do Estado, mas que eram livremente escolhidas e cultivadas. A construção de uma “comunidade afetiva” [“affectional community”, de redes de relações externas à família] deve ser uma parte tão fundamental de nosso movimento político como as campanhas pelos direitos civis. Dessa forma, poderemos prefigurar a forma das relações pessoais em uma sociedade baseada na igualdade e na justiça em vez da exploração e opressão;  uma sociedade onde a autonomia e a segurança não impedem um ao outro, mas coexistem.


NOTA PRELIMINAR [D’EMILIO]

Esse ensaio é uma versão revisada de uma palestra dada para várias audiências entre 1979 e 1980. Eu sou grato aos seguintes grupo por  terem me dado um fórum no qual falar e por terem me dado retorno [feedback] com relação às exposições: à Aliança Gay de Baltimore [Baltimore Gay Alliance], ao Projeto de História Lésbica e Gay de São Francisco [San Francisco Lesbian and Gay History Project], aos organizadores da Semana da Consicientização Gay de 1980 [Gay Awareness Week 1980] na Universidade Estadual de San Jose, e na Universidade da Califórnia em Irvine, e aos coordenadores das Palestras de Assuntos Estudantis da Universidade da Califórinia em Irvine.

Lisa Duggan, Estelle Freedman, Jonathan Katz, Carole Vance, Paul Webster, Bert Hansen, e os demais editores deste volume, ofereceram críticas de um rascunho anterior. Desejo agradecer especialmente Allan Berubé e Jonathan Katz por terem generosamente compartilhado comigo suas próprias pesquisas, e Amber Hollibaugh por nossas muitas horas de conversas fascinantes e sem parar sobre marxismo e sexualidade.


NOTAS FINAIS [D’EMILIO]

  1. Não quis sugerir que ninguém jamais propusera que a identidade gay é um produto de transformações históricas. Ver, por exemplo, Mary McIntosh, “The Homosexual Role” [‘O Papel Homossexual’], Social Problems n. 16 (1968), pp. 182-92; Jeffrey Weeks, Coming Out: Homosexual Politics in Britain [‘Saindo do Armário: Política Sexual na Grã-Bretanha’] (Nova York, Quartet Livros, 1977). Também está implícito em Michel Foucault, The History of Sexuality, vol.1: An Introduction, trad. Robert Hurley [História da Sexualidade, vol. 1] (New York: Pantheon, 1978). No entanto, isso representa um ponto de vista minoritário e os trabalhos citados acima não especificaram como é que o capitalismo como um sistema de produção permitiu o surgimento de uma identidade gay e lésbica. Como um exemplo da tese do “eterno homossexual”, ver John Boswell, Christianity, Social Tolerance, and Homosexuality [‘Cristandade, Tolerância Social e Homossexualidade’] (Chicago: University of Chicago Press, 1980), onde “gays” permanece uma categoria social imutável ao longo de quinze séculos de história do Mediterrâneo e da Europa Ocidental.
  2. Ver Eli Zaretsky, Capitalism, the Family, and Personal Life (Nova York: Harper and Row, 1976); e Paula Fass, The Damned and the Beautiful: American Youth in the 1920s (Nova York: Oxford University Press, 1977).
  3. Robert F. Oaks, “Things Fearful to Name”: Sodomy and Buggery in Seventeenth Century New England, Journal of Social History 12 (1978): pp. 268-81; J. R. Roberts, “The case of Sarah Norman and Mary Hammond”, Sinister Wisdom 24 (1960): pp. 57-62; e Joanthan Katz, Gay American History [História Gay Americana] (Nova York: Crowell, 1976), pp. 16-24, 568-71.
  4. Para o período de 1870 a 1940, consulte os documentos em Katz, Gay American History e idem, Gay/Lesbian Almanac (Nova York: Crowell, 1983). Outras fontes incluem: Allan Bérubé, “Lesbians and Gay Men in America,” artigo não publicado, 1979; Vern Bullough e Bonnie Bullough, “Lesbianism in the 1920s and 1930s: A New Found Study,” Signs 2 (Summer 1977): pp. 895-904.
  5. Sobre o modelo médico, ver Weeks, Coming Out, pp. 23-32. O impacto do modelo médico sobre a consciência de homens e mulheres pode ser visto em Louis Hyde, ed., Rat and the Devil: The Journal Letters of F. O. Matthiessen e Russell Cheney (Hamden, Conn .: Archon, 1978), p. 47, e na história de Lucille Hart em Katz, Gay American History, pp. 258-79. O clássico romance de Radclyffe Hall sobre lesbiandade, The Well of Loneliness, publicado em 1928, foi talvez um dos veículos mais importantes de popularização do modelo médico.
  6. Ver Alfred Kinsey et al., Sexual Behavior in the Human Male (Filadélfia: W. B. Saunders, 1948) e Sexual Behavior in the Human Female (Filadélfia: W. B. Saunders, 1953).
  7. Sobre música negra, consulte “AC/DC Blues: Gay Jazz Reissues”, Stash Records, ST-106 (1977) e Chris Albertson, Bessie (Nova York: Stein and Day, 1974); sobre a persistência de redes de parentesco em comunidades étnicas brancas, consulte Judith Smith, Our Own Kind: Family and Community Networks em Providence, em A Heritage of her own, ed. Nancy F. Cott e Elizabeth H. Pleck (Nova York: Simon e Schuster, 1979), pp. 393-4111; sobre as diferenças entre o homoerotismo masculino rural e urbano, ver Kinsey et al., Sexual Behavior in the Human Male, pp. 455-57, 630-31.
  8. O argumento e as informações neste e nos parágrafos seguintes vêm do meu livro Sexual Politics, Sexual Communities: The Making of a Homosexual Minority in the United States, 1940-1970 (Chicago: University of Chicago Press, 1983). Eu também desenvolvi esse argumento, com referência à São Francisco, em “Gay Politics; Gay Community: San Francisco’s Experience,” Socialist Review 55 (Janeiro-Fevereiro 1981), pp. 77-104.
  9. Donald Vining, A Gay Diary, 1933-1946 (New York: Pepys Press, 1979); “Pat Bond,” no livro de Nancy Adair e Casey Adair, Word is Out (New York: New Glide Publications, 1978), pp. 55-65; e Allan Bérubé “Marching to a Different Drummer: Coming Out during World War II”, palestra apresentada na reunião anual da Associação Histórica Americana [American Historical Association], dezembro de 1981, Los Angeles. Uma versão mais curta da apresentação de Bérubé pode ser encontrada em The Advocate, 15 de outubro, 1981, pp. 20-24.
  10. Sobre romances lésbicos, ver The Ladder, março de 1958, p. 18; Fevereiro de 1960, pp. 14-15; Abril de 1961, pp. 12-14; Fevereiro de 1962, pp. 6-11; Janeiro de 1963, pp. 6-13; Fevereiro de 1964, pp. 12-19; Fevereiro 1965, pp. 19-23; Março de 1966, pp. 22-26; e Abril de 1967, pp. 8-13. A The Ladder [‘A Escada’] era a revista publicada pelas Filhas de Bilitis.
  11. Isso precisa ser especialmente enfatizado hoje. A conferência anual da Organização Nacional das Mulheres [National Organization for Women, a famosa NOW] em 1980, por exemplo, aprovou uma resolução pelos direitos das lésbicas que definiu a questão como de “discriminação com base na preferência/orientação afetiva/sexual” e explicitamente desassociou a questão de outras questões envolvendo sexualidade, como pornografia, sadomasoquismo, sexo público e pederastia.
  12. Não pretendo sugerir que a homofobia seja “causada” pelo capitalismo, ou que seja encontrada apenas em sociedades capitalistas. Sanções severas contra o homoerotismo podem ser encontradas na sociedade feudal europeia e nos países socialistas contemporâneos. Mas meu foco neste ensaio foi o surgimento de uma identidade gay sob o capitalismo e os mecanismos específicos do capitalismo que tornaram isso possível e que também reproduzem a homofobia.

NOTAS DA TRADUÇÃO

[a*] Acrônimo para “White, Anglo-Saxon and Protestant”: Branca(o), Anglo-Saxã(o) e Protestante, ou seja, é uma sigla que quer representar ‘o estadunidense tradicional’, ou, ao menos, aquele que a ideologia apresenta como tradicional. Geralmente é utilizado para significar um grupo de pessoas americanas que são genericamente entendidas como um setor mais beneficiado da população do país, em relação às pessoas negras, hispânicas etc. Na literatura marxista, é muitas vezes utilizado de forma irônica.

[b*] A ball culture é uma subcultura LGBT, negra e latina, em que as pessoas competem (geralmente por prêmios e troféus) desfilando, dançando e performando voguing. Os balls são os eventos, geralmente semanais, onde essa competição, desfile e performance acontecem. Foi uma subcultura popular principalmente nos anos 70, 80 e começo dos anos 90, mas que existe, aparentemente, desde os anos 1910 e persiste até hoje. As drag queens, drag kings, e pessoas no geral que competem nos balls se agrupam costumeiramente em Casas, que funcionaram historicamente tanto como um grupo de competidoras, e tanto como uma “família alternativa”, incluindo casas conjuntas etc. Parte dessa cena é abordada no famoso documentário Paris is Burning.

[c*] A Associação Cristã de Moços é uma associação mundial, originalmente de caráter moral-religioso e dedicada exclusivamente a moços, que contém centros locais espalhados pelo mundo, abertos, onde pessoas, geralmente homens jovens, podem praticar esportes, exercícios físicos e demais atividades ligadas à saúde etc. Nos EUA, esses centros eram muito comuns nas cidades grandes e médias e se converteram rapidamente em um ponto de encontro para sexo gay masculino (aliás, daí que vem a música ‘YMCA’, do Village People). No contexto do ensaio, D’Emilio se refere a esses centros ligados à subcultura gay; e a centros de esportes e atividades físicas públicos ou abertos, no geral, que adquiram o mesmo caráter.

[d*] As universidades americanas são quase todas privadas, e geralmente o acesso delas por parte de pessoas da classe trabalhadoras se dá mediante programas estatais. Porém, até as décadas de 80-90, a universidade nos EUA era um espaço pequeno-burguês por excelência, quase que exclusivamente. Conseguir um diploma era um feito raro para as trabalhadoras.

[e*] No original, “GIs, WACS e WAVEs”. GI é a denominação comum aos soldados estadunidenses que lutaram na Segunda Guerra Mundial. WACS e WAVE são as seções femininas do Exército e da Marinha dos EUA. No contexto do ensaio, D’Emilio se refere aos lugares onde essas pessoas ficavam, juntas e amontoadas, segregadas por ‘sexo’.

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