[Texto 1] Marxismo e a opressão às mulheres: por uma teoria unitária, por Lise Vogel

Tradução por Felipe Lakatos. Apresentação por André Porto Freire.

Os artigos que se seguem foram escritos pela feminista-marxista estadunidense Lise Vogel, e estão compilados em seu livro Marxism and the Oppression of Women: Toward a Unitary Theory [Marxismo e a opressão às mulheres: por uma teoria unitária], publicado em 1983. A edição deste livro se dá num contexto de dissenso do debate sobre o trabalho doméstico, que ocorreu nos EUA e na Europa nas décadas de 1960 e 1970, e tinha como objetivo teorizar sobre o caráter do trabalho doméstico, isso é, se ele seria produtivo em termos marxistas e se ele formaria um sistema autônomo ao capitalismo, com uma lógica própria. A partir disso, Vogel se lança ao debate numa tentativa de sistematizar a perspectiva da reprodução social enquanto uma teoria unitária sobre a opressão das mulheres e a sua relação com o capitalismo. Entretanto, a publicação da obra foi seguida por anos de crise do campo socialista e ascensão do neoliberalismo, dando espaço para as teorias sociais pós-modernas nas discussões sobre gênero, essas com um traço claramente fragmentário, anti-materialista e marcado pela repulsa à crítica da economia política  — características essas estranhas ao projeto unitário da reprodução social.

Após produzir um balanço crítico das teorias feministas predominantes de seu período histórico e da abordagem tradicional dos socialistas sobre A Questão da Mulher, Vogel se coloca à procura da base material da condição de opressão das mulheres sob o capitalismo, propondo uma retomada da teoria da sociedade marxiana, resgatando as categorias centrais d’O Capital, como a mercadoria força de trabalho. A partir disso, a autora de Marxismo e a opressão às mulheres tem como premissa de investigação a produção e reprodução diária e geracional da força de trabalho, questionando como essa mercadoria, que é tida para Marx como uma mercadoria especial, é produzida e reproduzida nas sociedades capitalistas. Vogel chega à conclusão que a força de trabalho é produzida de forma “não-capitalista”, já que o seu lugar privilegiado de produção e reprodução é a família da classe trabalhadora, isso é, a mercadoria força de trabalho é produzida de forma predominante dentro das famílias da classe trabalhadora, mas de forma distinta das demais mercadorias, já que a sua produção não é “supervisionada” diretamente pelo capital, ocorrendo em tempos e espaços além dos imperativos imediatos da produção de valor capitalista. Apesar do avanço da mercantilização das formas de reprodução social — como o crescimento de redes de fast-food —, essa continua sendo a forma predominante de reprodução diária e geracional da força de trabalho, causando pouca despesa para a burguesia, principalmente pelas frações mais precarizadas da classe trabalhadora, que têm a sua reprodução diferenciada em relação às demais e assim rebaixando a “cesta básica” média da população trabalhadora (os meios necessários para a subsistência), colocando como central a contradição entre o aumento da mais-valia dos capitalistas e a piora das condições da vida dos trabalhadores.

Com essa perspectiva, Vogel conclui que a base material da opressão de gênero está situada na relação historicamente constituída entre a condição biológica de corpos sexuados femininos e as relações sociais de produção, combatendo, dessa forma, tanto as perspectivas feministas radicais que situavam a base material da opressão de gênero num patriarcado trans-histórico, colocando uma classe sexuada de mulheres contra uma classe sexuada de homens, como as perspectivas marxistas clássicas, como Engels e Bebel, que a partir de uma visão liberal, entendem a condição da opressão das mulheres numa relação de dependência econômica dos homens, além das operaístas, que compreendem que as mulheres são oprimidas no capitalismo porque seu trabalho em casa produz valor para o capital. Entretanto, ao falar sobre a relação entre biologia e capital, podemos cair no risco de biologizar a opressão de gênero. Por isso, Ferguson e McNally (2017) pontuam que “não é a biologia per se que dita a opressão às mulheres, mas, em vez disso, a dependência do capital dos processos biológicos específicos das mulheres — gravidez, parto, lactação — para garantir a reprodução da classe trabalhadora”. Anos depois da má recepção do livro de Vogel, num recente contexto de intensificação das desigualdades sociais e ascensão do fascismo, ressurge a proposta de criação de uma teoria unitária enquanto um campo teórico-prático que recebeu o nome de Teoria da Reprodução Social, tendo como horizonte a construção, a partir da ortodoxia marxista e crítica à economia política, de uma teoria verdadeiramente marxista da opressão de gênero (assim como as demais opressões). A reedição, em 2013, do livro Marxism and the Oppression of Women: Toward a Unitary Theory, além do livro Social Reproduction Theory: Remapping Class, Recentring Oppression, organizado, em 2017, pela Tithi Bhattacharya, fazem parte dos esforços internacionais de colocar no debate público o horizonte socialista da emancipação da classe trabalhadora e da superação das opressões de gênero, raça e sexualidade.

Capítulo 6: Engels: uma formulação defectiva

Havendo chegado na Inglaterra em 1850 como exilado da tempestade política que ocorria no continente, Engels permaneceu em Manchester por duas décadas, empregado na fábrica de tecidos da família. Uma crescente e assegurada renda o permitiu ajudar Marx, que vivia continuamente em dificuldade financeira durante esses anos. Em 1870, às vésperas da Comuna de Paris, e com a Internacional despertando, Engels desfez a sua parceria nos negócios e se mudou para Londres, onde conseguiria participar mais ativamente da vida política. Até a morte de Marx em 1883, os dois amigos trabalharam lado-a-lado no movimento socialista, diariamente discutindo cada aspecto do seu trabalho político e teórico. Com Marx, Engels fez parte do Conselho Geral da Internacional e trabalhou para unificar as várias correntes dentro do movimento socialista. E, como Marx, cumpriu o papel de decano e assessor do movimento depois do colapso da Internacional, continuando nessa função até a sua morte em 1895.

Durante os seus últimos vinte anos de vida, Engels também embarcou numa vasta jornada pesquisando e escrevendo. Dentre as suas obras publicadas, dois livros muito conhecidos e extremamente populares tratam sobre o problema da opressão das mulheres. Junto com O Manifesto Comunista, tais textos agiram como guias fundamentais para as gerações emergentes de socialistas.

Engels produziu a obra que ficou conhecida como Anti-Dühring em 1878, uma polêmica contra as visões do socialista Eugen Dühring. O livro apresenta uma exposição extensiva daquilo que Engels via como “a perspectiva de mundo comunista pela qual eu e Marx lutamos”. Naturalmente, tal perspectiva incluía alguns comentários sobre as mulheres, a família e a reprodução da classe trabalhadora, que, no geral, recapitulam as suas próprias análises e posições, assim como as de Marx. Em um levantamento dos pensadores socialistas pré-marxistas, por exemplo, Engels aprova a crítica de Fourier sobre as relações entre os sexos e a posição da mulher na sociedade capitalista, e afirma, seguindo uma paráfrase de Fourier que Marx fizera em A Sagrada Família, que o socialista utópico foi o primeiro a tratar a posição [social] da mulher como um fator do desenvolvimento social geral[1]. Engels também revisa vários temas discutidos em obras prévias: a determinação do valor da força de trabalho, os efeitos da maquinaria na família da classe trabalhadora, o surgimento de um exército industrial de reserva, o caráter do casamento burguês como uma forma legal de prostituição e a progressiva dissolução dos laços familiares, incluindo a “subordinação patriarcal”, de acordo com o avanço do capitalismo[2]. Observando a família em sociedades mais primitivas, Engels discorre sobre “a divisão natural do trabalho dentro da família”, que, com certa qualificação, subordina todos os membros da casa ao homem-chefe da família[3]. Finalmente, Engels insiste que as formas que a família adquire estão enraizadas em relações sociais, e, portanto, que a família pode modificar-se quando a sociedade é transformada. Nesse contexto, ele estabelece um corolário programático-crítico a partir das afirmações de Marx n’O capital, que diz que o capitalismo cria as bases para tais mudanças. O que é necessário não é somente “a livre associação dos homens”, mas “a transformação do trabalho doméstico privado numa indústria pública”. Essa é a primeira formulação dentro da tradição marxista clássica de uma posição que, mais tarde, tornar-se-ia um princípio central na estratégia socialista[4].

Outro grande livro de Engels desse período é o famoso A origem da família, da propriedade privada e do Estado, escrito entre março e maio de 1884, publicado em outubro do mesmo ano e instantaneamente considerado um clássico socialista.

As circunstâncias da rápida e repentina produção de A origem por Engels permanecem nebulosas. A obra é baseada, como indica o seu subtítulo (Em conexão com as pesquisas de Lewis H. Morgan), em Sociedade antiga, de Morgan, que havia aparecido em 1877 e imediatamente tomado o interesse de Marx. Escrevendo ao socialista alemão Kautsky em 16 de fevereiro de 1884, Engels descreveu o entusiasmo tardio de Marx pelo livro de Morgan, dizendo “se eu tivesse tempo, trabalharia com o material, usando as notas de Marx (…), mas não posso nem pensar nisso”. Ainda assim, no meio de março ele já estava trabalhando em A origem e, ao final de abril, perto de acabá-la[5]. A explicação completa dos motivos para que Engels mudasse de planos, o que é especialmente surpreendente tendo em vista o fato de que ele já estava imerso na edição dos volumes inacabados d’O Capital, precisa aguardar futura pesquisa. É bem provável que o contexto fora político. Em 1879, o líder socialista alemão August Bebel publicara o livro As mulheres no passado, no presente e no futuro, o qual obteve uma versão revisada em 1883. Tremendamente popular desde o começo, a obra de Bebel levou a influência do socialismo utópico por onde quer que passasse; adicionalmente, refletia as tendências ao reformismo que surgiam dentro do movimento socialista. A decisão de Engels de escrever A origem certamente refletiu um reconhecimento das fraquezas na obra de Bebel. O compromisso do movimento socialista com a libertação das mulheres requeria, urgentemente, uma base teórica adequada. Compreendida como uma polêmica implícita dentro do movimento, A origem representou uma tentativa de Engels de escancará-la[6].

A tradição socialista tem tratado A origem como o pronunciamento marxista definitivo sobre a família e, em consequência, sobre a assim-chamada questão da mulher. Além disso, tal tradição considera que o livro reflete fielmente a visão de Marx assim como a de Engels. Entretanto, nenhuma dessas considerações faz jus ao status da obra. Em primeiro lugar, o assunto tratado em A origem, como o seu título indica, é o desenvolvimento não apenas da família, mas da propriedade privada e do Estado. A observação é importante pois demonstra os objetivos limitados do livro em relação à questão da subordinação da mulher. Ao invés de providenciar uma análise compreensiva sobre as mulheres, a família e a reprodução da classe trabalhadora, A origem procura simplesmente situar de forma assegurada certos aspectos da questão num contexto histórico e teórico. Em segundo lugar, A origem carrega as cicatrizes da sua apressada gênese. Longe de ser o melhor trabalho tanto de Marx quanto de Engels, ela constitui, nas palavras de Engels, “uma pobre compensação para aquilo que meu falecido amigo não pôde oferecer”[7].

Ao rascunhar A origem, Engels se baseou não apenas em Sociedade antiga de Morgan, mas numa série de cadernos nos quais Marx havia anotado passagens de diversos autores sobre sociedades primitivas. Esses Cadernos etnológicos, escritos de 1880 a 1881, incluem um longo resumo do livro de Morgan. Não está nem um pouco claro o que Marx pretendia fazer com o material que estava coletando, e Engels alterou o recorte estabelecido nesses cadernos até certo ponto. Para compreender a estrutura e o significado do livro de Engels é necessário, portanto, examinar o conteúdo, as afirmações teóricas e as fragilidades do livro de Morgan, Sociedade antiga[8].

Em Sociedade antiga, Morgan, um antropólogo americano vivendo no norte do estado de Nova York, procura demonstrar o surpreendente paralelo evolutivo daquilo que ele via como quatro características essenciais da sociedade humana: as invenções e as descobertas, o governo, a família, e a propriedade. O livro organiza um vasto arranjo de dados etnográficos em seções correspondentes a essas quatro características, rotuladas por Morgan como “Linhas do progresso humano da selvageria, da barbárie e até à civilização”. A primeira parte, um pequeno levantamento intitulado “Aumento da inteligência através das invenções e descobertas”, coloca as bases da periodização evolucionária de Morgan em três grandes estágios do desenvolvimento dos modos [arts] de subsistência. No nível mais primitivo da organização social humana, os povos do estágio da selvageria – o que hoje os antropólogos chamam de culturas de caça e coleta – obtêm a subsistência na coleta de plantas selvagens, na pesca e na caça. O segundo período, a “barbárie”, é caracterizado pela produção de comida em oposição à coleta típica da selvageria. As culturas do mais baixo nível da barbárie praticam horticultura, um tipo simples de domesticação das plantas. Nos estágios mais altos da barbárie, animais são domesticados e se desenvolve uma agricultura mais sofisticada, a qual inclui o uso do arado e irrigação. Finalmente, no período da “civilização”, as sociedades baseiam-se nesses métodos mais avançados de agricultura, aos quais elas adicionam a escrita e a preservação de registros. Morgan divide tais sociedades em dois tipos: antigo e moderno. Com essa sequência de estágios, Morgan assenta toda a história humana numa fundação materialista, mas cuja essência é tecnológica, não social.

Morgan dedica praticamente dois terços de Sociedade antiga à segunda parte, “Crescimento da ideia de governo”. Aqui, ele apresenta a teoria da evolução da organização social desde formas baseadas no parentesco até a governança política totalmente desenvolvida. A organização social da maioria dos povos primitivos é baseada simplesmente em amplas “classes” definidas de pessoas permitidas a casar entre si. Quando se diminui o círculo de possíveis parceiros matrimoniais, surge a gens, ou clãs. Um clã consiste em pessoas relacionadas entre si por apenas uma linha parental. Numa sociedade “gentílica” – isto é, uma organizada com base em clãs – um indivíduo pertence ao clã ou da mãe ou do pai, mas não de ambos. Onde houver propriedade, ela é retida dentro do clã após a morte de um membro. A unidade social fundamental é, por isso, o clã, seja matrilinear ou patrilinear. A união [entre os membros] do casal não pode ter o papel estrutural central que mais tarde adquire, pois conecta pessoas cuja maior fidelidade pertence a clãs distintos. Morgan mostra que o sistema gentílico, ou de clãs, providencia as fundações para um tipo complexo de organização social. Os clãs podem ser agrupados em unidades maiores, chamadas fratrias, e essas, por sua vez, podem juntar-se para formar tribos. Na forma mais desenvolvida do sistema de clãs, que Morgan acreditava ter observado entre os indígenas iroqueses, diversas tribos constituem uma confederação ou nação, capaz de incluir milhares de membros numa vasta área geográfica, mesmo sem instituições políticas formais e ainda baseada em laços pessoais.

Nos estágios mais tardios da barbárie, o avanço tecnológico na produtividade gera uma sociedade tão complexa que a organização de clãs precisa ceder. As cidades desenvolvem-se, trazendo necessidades tão avançadas a nível de governo que o sistema de clãs não consegue resolver. A propriedade, mesmo não sendo um fenômeno novo, obtém um papel dominante. “Por isso a criação e a proteção da propriedade tornam-se os objetivos principais do governo”[9]. No lugar do sistema de clãs entram as instituições de organização política, pois o governo não pode mais estar assentado em relações pessoais. Morgan rascunha a evolução inicial do Estado, que organiza as pessoas, agora distribuídas em classes de acordo com a propriedade, numa base territorial. Tomando Roma como exemplo, ele cita três principais modificações que marcam a mudança da sociedade gentílica à política. Primeiro, um sistema de classes baseado na propriedade substitui a organização em clãs. Segundo, ao invés do governo do conselho democrático tribal, uma assembleia dominada pelas classes proprietárias possui, e logo mais estende, o poder político. Terceiro, áreas territoriais, ao invés dos clãs, fratrias ou tribos baseadas em parentesco, tornam-se as unidades de governo.

Antes mesmo do surgimento da organização política desenvolvida, uma mudança crítica ocorreu dentro do sistema de clãs. Em certo ponto, a organização matrilinear do clã sucumbiu ao princípio da patrilinearidade, sob o ímpeto do desenvolvimento da propriedade. Segundo Morgan, a descendência através da linhagem feminina era a forma original da organização do clã, por conta da sua certeza biológica. No entanto, assim que surgiu a propriedade do gado e da terra, isso significou que a “descendência pela linhagem feminina estava destinada ao colapso, e a substituição pela linhagem masculina igualmente assegurada”, dois fatos totalmente auto-evidentes na visão de Morgan[10]. Primeiro, os homens naturalmente tornaram-se os donos da propriedade; segundo, eles desenvolveram um desejo natural de transmiti-la para seus filhos. Assim, no estágio médio da barbárie, a acumulação da propriedade leva a que o clã patrilinear se torne a unidade básica do sistema social gentílico.

A terceira parte, intitulada “Crescimento da ideia da família”, compõe cerca de um-quarto de Sociedade antiga. Enfatizando que a forma da família é altamente variável, Morgan traça a sua evolução através de cinco estágios. A progressiva restrição dos parceiros disponíveis para o casamento constitui a base desse desenvolvimento. No primeiro tipo de família, a “consanguínea”, irmãs e primas são casadas, como um grupo, com os seus irmãos e primos. O próximo tipo de família, a “punaluana”, modifica o primeiro ao proibir o casamento entre irmãos e irmãs.

Essas são duas formas de casamento grupal, que sugerem um estágio ainda anterior de relações sexuais promíscuas e representam formas conjecturais, reconstruídas por Morgan com base no seu entendimento acerca da terminologia de parentescos e correspondendo, de forma geral, aos estágios da selvageria e da barbárie inicial.

A terceira forma, a família “sindiásmica” ou “do par”, é fundada no casamento de um par [um “casal”], que vive numa casa comunal [junto com outros pares] e cuja união pode ser dissolvida pela vontade de qualquer um dos parceiros. A família do par constitui o tipo de família associado às sociedades de clã. Os laços de linhagem permanecem primários para cada parceiro, pois o clã é a unidade social básica e tem a responsabilidade final pelos seus membros. Morgan nota a extensão a que chega a seguridade coletiva providenciada por esse sistema aos indivíduos, assim como o seu relativo igualitarismo quando comparado com as subsequentes formas familiares.

Os dois últimos tipos de família refletem a influência do desenvolvimento da propriedade. A família “patriarcal” organiza um grupo de pessoas – escravo, servo e livre – sob o comando do homem-chefe, que exerce autoridade suprema. A família “monogâmica” é baseada no casamento de um único casal que, com suas crianças, compõe uma unidade doméstica independente. Morgan conceptualiza ambos os tipos de família como instituições cujo propósito primário é assegurar a propriedade e transmiti-la exclusivamente à sua prole. Para assegurar a paternidade dos filhos, a fidelidade estrita é exigida das mulheres. O poder paternal é mais ou menos absoluto, e somente a morte pode quebrar a união matrimonial. As famílias patriarcal e monogâmica, portanto, localizam-se em total oposição à organização em clãs. São formas mais apropriadas para a sociedade política e aparecem nos estágios finais da barbárie e continuam civilização adentro.

Morgan argumenta que as famílias patriarcal e monogâmica representam um avanço social, pois permitem uma individualidade elevada das pessoas. Ao mesmo tempo, ele reconhece que, na prática, tal individualidade estava disponível apenas para os homens. As mulheres, assim como as crianças, estavam no geral subordinadas ao poder paternal do chefe de família. Em contraste, a família do par da sociedade de clãs havia providenciado às mulheres um certo nível de relativa igualdade e poder, particularmente antes da transição à descendência patrilinear. Enquanto os filhos permanecessem no clã da mãe, a família do par estava baseada no espaço doméstico do clã matrilinear, levando Morgan a pensar que a mulher, ao invés do homem, funcionava como o centro da família. Com a mudança para a descendência na linhagem masculina, a família do par virou parte do espaço doméstico do clã patrilinear, e a mulher foi mais isolada dos seus parentes gentílicos. Tal mudança “operou profundamente para rebaixar a sua posição e impedir o seu progresso na escala social”, mas a mulher ainda era membro do seu próprio clã e, por isso, manteve, em medida substancial, uma posição social independente[11]. O advento do poder paternal nas famílias patriarcal e monogâmica abre o caminho para uma degradação muito mais profunda da posição das mulheres. Aqui, a cruel subordinação das mulheres e das crianças desmente a noção otimista de Morgan de um desenvolvimento evolucionário. Porém, ele apresenta o material honestamente, apoiado na fé de que a monogamia é, ao menos em princípio, a mais elevada e igualitária forma de família. Apesar disso, a evidência empírica se coloca em contradição com o próprio comprometimento de Morgan com uma teoria progressivista da evolução[12]. Sobrou para Engels, em A origem, sugerir um quadro teórico mais adequado.

Sociedade antiga termina com uma quarta parte, intitulada “Crescimento da ideia de propriedade”, na qual Morgan resume o seu entendimento do desenvolvimento social. Ele distingue três estágios do desenvolvimento da propriedade, geralmente correspondendo aos três maiores períodos evolutivos. Entre os povos mais primitivos, aqueles no nível da selvageria, a propriedade existe de forma escassa. A terra é bem comum, assim como a casa, e Morgan especula que o gérmen da propriedade está no desenvolvimento de um direito a herdar artigos pessoais. A propriedade da terra, da casa e do gado surge no estágio da barbárie. As regras para a herança conformam-se, primeiramente, à organização em clãs: a propriedade volta para o clã do falecido, não para o seu cônjuge. Eventualmente, a posse individual através da família monogâmica prevalece, com a propriedade herdada pelos filhos do falecido dono. Chegou o período da civilização.

Em conclusão, Morgan oferece a observação de que, na sua própria época, a propriedade se transformou num “poder inadministrável”. A sociedade está no curso de uma colisão, e a sua desintegração é a consequência lógica “de uma corrida cujo fim e alvo é a propriedade; por isso tal corrida contém os elementos da sua autodestruição”. Ainda assim, Morgan mantém uma esperança na reconstrução da sociedade no “próximo plano elevado”, que aparecerá como “um reavivamento, numa forma elevada, da liberdade, igualdade e fraternidade” da sociedade de clã antiga[13].

Sociedade antiga é uma obra monumental. Nela, Morgan resolveu o quebra-cabeça da organização em clãs, descreveu a sequência das instituições sociais em termos evolutivos e tentou analisar as bases do seu desenvolvimento. Publicado em 1877, o livro se tornou fundamental para toda a subsequente pesquisa sobre a história das sociedades humanas antigas, apesar dos seus muitos erros factuais e interpretativos. Esse resultado, assim como as contribuições substanciais de Morgan, tem sido amplamente discutido[14]. Aqui, a ênfase será sobre o entendimento de Morgan acerca dos mecanismos da mudança social.

Morgan apresenta o seu material sob a forma de eventos paralelos, como quatro tipos de fenômenos “os quais se estendem em linhas paralelas através do percurso do progresso humano desde a selvageria à civilização”. Sendo um acadêmico pragmático, ele se prende aos dados e se permite generalizar, mas não teorizar. Assim, cada linha constitui “uma sequência tanto natural quanto necessária do progresso”, mas a razão para tal necessidade permanece misteriosa. Além disso, a discussão de Morgan sobre a evolução da família pressupõe uma compreensão do desenvolvimento da organização em clãs e vice-versa. A organização extremamente repetitiva de Sociedade antiga revela a inabilidade do autor em estabelecer uma relação teórica clara entre as “quatro classes de fatos”. Uma teoria do desenvolvimento social fica implícita, ainda assim, na obra de Morgan. Observando frequentemente que “a experiência da humanidade tem corrido sobre canais praticamente uniformes”, ele propõe que a presença dos principais marcadores nesses canais é determinada pela evolução dos modos [arts] de subsistência – isto é, dos tipos de invenções e descobertas usadas para adquirir ou produzir os meios [means] de subsistência. Resumidamente, o progresso humano baseia-se, em última instância, nos avanços tecnológicos no modo de vida material[15].

Morgan reconhece o papel crítico do desenvolvimento da propriedade. “É impossível superestimar a influência da propriedade na civilização humana”. A necessidade de transmitir a propriedade aos herdeiros é o que baseia, na sua visão, a mudança da organização em clãs de matrilinear para patrilinear. Similarmente, “a propriedade, havendo aumentado em variedade e quantidade, exerceu uma crescente e constante influência em direção à monogamia”. E foi o surgimento de novas “vontades complicadas”, brotando de uma acumulação acelerada da propriedade, que trouxe a dissolução da organização em clãs e a sua substituição pela sociedade política. Mas o que é a propriedade e por que é uma força motivadora do desenvolvimento social? Para Morgan, a propriedade consiste em coisas, os objetos da subsistência, mas não estão fundamentadas em nenhuma rede determinada de relações sociais. Assim que a ideia de propriedade germina, ela simplesmente cresce automaticamente, estendendo-se tanto em magnitude quanto em complexidade enquanto nutre uma sequência de estágios nos modos [arts] de subsistência. “Começando do zero na selvageria, a paixão pela posse da propriedade, enquanto representadora da subsistência acumulada, agora se tornou dominante sobre a mente humana nas raças civilizadas”. Para Morgan, uma paixão nas mentes dos homens – nominalmente, a ganância – leva naturalmente à evolução da propriedade e, consequentemente, ao desenvolvimento social geral[16].

Nos seus excertos de Sociedade antiga feitos nos Cadernos etnológicos, Marx revisou a estrutura da apresentação de Morgan[17]. Morgan começara pela evolução dos modos [arts] de subsistência, e então pesquisou o desenvolvimento paralelo do governo, da família e da propriedade. Marx moveu a longa seção de Morgan sobre o governo para o final de suas notas e alterou o espaço dado a cada parte. Ele reduziu pela metade a discussão sobre os modos [arts] de subsistência, e por um terço a seção sobre a família. Ao mesmo tempo, estendeu proporcionalmente o espaço dado por Morgan à discussão da propriedade e do governo. Em resumo, as notas de Marx rearranjam o material de Morgan da seguinte forma: modos [arts] de subsistência (reduzido); família (reduzido); propriedade (expandido); governo (ligeiramente expandido). Através dessa reorganização, Marx provavelmente procurou colocar as descobertas de Morgan em uma ordem teórica mais coerente.

Na mesma medida em que Engels incorporou o material de Sociedade antiga em A origem, ele adotou a organização dos excertos de Marx nos Cadernos etnológicos – realizando, porém, diversas mudanças estruturais importantes. Ele não dedicou um capítulo separado ao assunto da propriedade. Alargou grandemente a importância relativa do capítulo sobre a família, dando-o quase tanto espaço quanto os capítulos dedicados ao Estado. E mudou o foco para a transição entre barbárie e civilização, de acordo com os interesses seus e de Marx no surgimento do Estado. Nesse sentido, Engels converteu as “quatro linhas do progresso humano” de Morgan em três seções, as quais compõem o volume de A origem.

Substancialmente, Engels seguiu Morgan de perto. Ele aparou a grande quantidade de evidências etnográficas, até mesmo as substituindo onde os seus próprios estudos ofereciam dados mais relevantes. Enfatizou os pontos que expunham mais abertamente o fundamento teórico revisto que ele procurava estabelecer. E empregou um estilo literário mais legível e engajado em uma conversa com o leitor. Em geral, A origem parece ser uma versão mais curta, assim como mais focalizada e acessível, de Sociedade antiga. Um exame mais aprofundado do modo pelo qual a apresentação do material de Engels diferencia-se da de Morgan revela tanto as contribuições quanto as limitações de A origem.

Em um pequeno capítulo introdutório, “Estágios culturais pré-históricos”, Engels sucintamente recapitula a ideia de Morgan acerca da evolução em três estágios dos modos [arts] de subsistência. Enfatizando a riqueza e a acuracidade de tal ideia, ele também reconheceu uma certa fraqueza. “O quadro que esbocei aqui […] parecerá fraco e mirrado em comparação com o quadro que se descortinará ao final de nossa peregrinação”[18]. Engels refere-se aqui ao seu plano de aprofundar a obra de Morgan ao reposicioná-la sob a luz da teoria de Marx do desenvolvimento social. Ao final, porém, A origem permanece muito mais próximo de Sociedade antiga do que Engels pretendia.

O capítulo dois, “A família”, o qual constitui cerca de um-terço do livro, apresenta uma versão retrabalhada e aumentada da estrutura de Morgan acerca dos tipos de família. Engels sublinha a importância da descoberta de Morgan de tal elemento histórico e toma a oportunidade para situar a obra de Morgan no contexto das especulações presentes nos séculos XVIII e XIX em relação à evolução dos primatas, ao comportamento social humano primitivo e à possibilidade de um estado primitivo de relações sexuais promíscuas. Concluindo essa meia dúzia de páginas com a observação de que os padrões morais burgueses não podem ser usados para interpretar sociedades primitivas, ele rapidamente resume e comenta a discussão de Morgan sobre as duas formas hipotéticas de casamento grupal[19]. Como Morgan, ele acredita que a seleção natural, através de mecanismos inatos de ciúmes e tabus em relação ao incesto, acionou os sucessivos tipos de famílias. Adicionalmente, a lógica por trás da mudança feita por Marx da estrutura de apresentação de Morgan agora se torna clara, pois Engels é capaz de explicar a origem do sistema de clãs enquanto descreve a família punaluana.

Havendo disposto do casamento grupal e da gênese do clã, Engels volta-se às famílias do par e patriarcal. Ele resume seletivamente as descobertas de Morgan ao mesmo tempo em que integra materiais discutidos por Morgan no seu capítulo sobre a propriedade. Junto com Morgan, Johann Jakob Bachofen e outros, Engels assume que a supremacia das mulheres caracterizou as sociedades primitivas, mas argumenta que aquela estava baseada materialmente na divisão sexual natural do trabalho dentro do espaço doméstico comunista primitivo. Somente se “novas forças sociais” fizessem tal base material-natural tomar uma forma diferente as mulheres poderiam perder a sua posição de independência[20]. E isso ocorreu quando a sociedade passou a produzir excedentes consideráveis, tornando possível a acumulação e a passagem da riqueza à posse privada das famílias. Como Morgan, Engels vê o desenvolvimento da produtividade como um processo evolutivo automático, porém ele faz certa distinção, embora vaga, entre riqueza, uma dada acumulação de coisas, e propriedade privada, uma relação social.

Assim que a riqueza é tomada privadamente, a sua acumulação torna-se uma questão social central. O “direito materno”, isto é, a descendência pela linhagem feminina e, com ela, a supremacia das mulheres no espaço doméstico comunal, agora constitui uma barreira ao desenvolvimento social. Anteriormente, a supostamente natural divisão do trabalho entre homens e mulheres colocava estas no comando do espaço doméstico enquanto aqueles tinham a tarefa de providenciar comida. Em uma sociedade de baixo nível de produtividade, portanto, as mulheres possuíam os bens domésticos, e os homens os instrumentos necessários para a caça, pesca, cultivo de plantas e afins. Com a crescente produtividade e o desenvolvimento da propriedade privada da terra, do gado e dos escravos, este acidente histórico trouxe à tona a impiedosa consequência de que os homens, os antigos possuidores dos instrumentos de coleta e produção de comida, agora são os proprietários da riqueza. O direito materno torna impossível, porém, que os homens transmitam a recém-evoluída propriedade privada aos seus filhos. “A linhagem segundo o direito materno […] tinha de ser derrubada, e ela o foi”[21].

Engels posiciona a mudança para o sistema de clã patrilinear como central no seu impacto sobre a sociedade e sobre a posição da mulher. Ela marca o estabelecimento de um conjunto de relações sociais que conduziram à posterior evolução não somente da propriedade privada mas da sociedade de classes. Mais trágico ainda, “a derrubada do direito materno representou a derrota do sexo feminino no plano da história mundial. O homem assumiu o comando também em casa; a mulher foi degradada, escravizada, tornou-se escrava do desejo do homem e mero instrumento de procriação”[22]. A família patriarcal, com a incorporação de escravos e servos sob a autoridade suprema do chefe de família, agora emerge como uma forma intermediária entre a família do par e a monogamia. Engels oferece exemplos históricos específicos desse estágio de transição, enfatizando a relação entre a posse da terra e a estrutura social, assim como a brutalidade do patriarca em relação à mulher no espaço doméstico.

Ao discutir a família monogâmica, Engels novamente segue Morgan ao mesmo tempo em que incorpora uma análise mais clara acerca das relações de propriedade e foca na questão da posição da mulher. A família monogâmica aparece no fim do segundo estágio do desenvolvimento dos modos [arts] de subsistência – isto é, na porta de entrada da civilização – e representa uma forma aperfeiçoada da transferência da propriedade privada de pai para filho. Engels enfatiza que a origem da família monogâmica se deu em condições econômicas e que tem, como função, ser uma instituição que assegure a propriedade. “Foi a primeira forma de família que não se fundou em condições naturais, mas em condições econômicas, a saber, sobre a vitória da propriedade privada sobre a propriedade comum primitiva, de origem natural”[23]. Embora Engels nunca o afirme de modo não-ambíguo, há a implicação de que a forma da família monogâmica, assim como a patriarcal, constitui um produto do surgimento da sociedade de classes.

Engels não possui ilusões sobre a posição das mulheres na família monogâmica. A monogamia é um padrão exigido apenas das mulheres, e existe somente para garantir a paternidade da prole, não por conta de amor ou afeto. Os homens permanecem livres para viver de acordo com um padrão diferente. Ao mesmo tempo, o fenômeno da esposa negligenciada carrega as suas próprias consequências. Assim, conjuntamente com a instituição do assim-chamado casamento monogâmico, floresce toda a sorte de adultério e prostituição. Mais ainda, “o casamento monogâmico […] entra em cena como a subjugação de um sexo pelo outro, como proclamação de um conflito entre os sexos, desconhecido em toda a história pregressa”. Na formulação de Engels, essa luta entre os sexos aparece simultaneamente às relações de classes. “O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher no casamento monogâmico, e a primeira opressão de classe que apareceu na história coincide com a do sexo feminino pelo sexo masculino”. Ao contrário de uma interpretação errônea comum desses aspectos, Engels não afirma que a luta entre os sexos antecede o conflito de classes. Porém, também não argumenta claramente que aquela está enraizada no surgimento da sociedade de classes. Ele simplesmente trata ambos os desenvolvimentos como paralelos, margeando os difíceis problemas das origens históricas e relações teóricas[24].

Com o caráter básico do casamento monogâmico estabelecido, Engels volta-se brevemente a um número de tópicos não tratados por Morgan. Para começar, ele apresenta uma rápida história do desenvolvimento da família monogâmica no período da civilização, com ênfase em até qual ponto ela nutriu o “amor sexual individual”. De acordo com Engels, os casamentos baseados no amor eram impossíveis antes do grande “avanço moral” constituído pela família monogâmica. Além disso, em todas as classes dominantes, mesmo após a gênese da família monogâmica, a conveniência, e não o amor, governou a escolha do parceiro matrimonial. Depois de observar rapidamente a família da classe dominante medieval, Engels foca no casamento na sociedade capitalista. Entre a burguesia, o casamento é uma questão de conveniência, geralmente arranjado pelos pais para continuar os seus interesses enquanto proprietários. Em contraste, o proletariado tem a oportunidade de verdadeiramente experienciar o amor sexual individual. Entre o proletariado, “foram eliminados todos os fundamentos da monogamia clássica. Está ausente a propriedade, para cuja preservação e transmissão por herança foram criadas a monogamia e a dominação masculina, e, em consequência, está ausente também toda a motivação para impor a dominação masculina. […] Nesse caso, outras relações sociais e pessoais são decisivas”. Mais ainda, Engels acredita que, com o emprego crescente das mulheres no trabalho assalariado e a sua consequente independência, não sobra nenhuma base para nenhum tipo de supremacia masculina nos lares da classe trabalhadora, “talvez se mantendo ainda um pouco da brutalidade que se abateu sobre as mulheres desde a introdução da monogamia”[25]. O otimismo de Engels, compartilhado por Marx e o movimento socialista do período, é problemático por três motivos. Primeiro, falha em compreender a importância do espaço doméstico da classe trabalhadora como uma unidade social essencial, não para assegurar propriedade, mas para a reprodução dessa própria classe. Segundo, ignora os meios pelos quais uma base material para a supremacia masculina é constituída dentro do espaço doméstico proletário. E, terceiro, subestima grandemente a variedade de fatores psicológicos e ideológicos que fundamentam continuamente a supremacia masculina na família da classe trabalhadora.

A maior parte de tal breve discussão de Engels sobre a situação da mulher dentro da família na sociedade capitalista está enquadrada em termos do distanciamento entre a igualdade formal e a igualdade substantiva[26]. Ele começa com uma analogia entre o contrato de casamento e o contrato de trabalho. Ambos admitem a livre associação, juridicamente falando, tornando, portanto, ambas as partes iguais no papel. Essa igualdade formal disfarça, no caso do contrato de trabalho, as diferenças de classe entre o trabalhador e o empregador. O contrato de casamento envolve uma mistificação similar já que, no caso de uma família proprietária, os pais determinam a escolha dos parceiros matrimoniais dos filhos. Na verdade, a igualdade legal dos parceiros no casamento está em profundo contraste com a sua desigualdade real. A questão, aqui, diz respeito à natureza do trabalho da esposa dentro do lar. O desenvolvimento das famílias patriarcal e monogâmica converte tal trabalho, outrora de responsabilidade de toda a família, em um serviço privado. Como Engels coloca, “a mulher se tornou a serviçal número um, alijada da participação na produção social”. O trabalho da mulher perde o lugar público ou socialmente necessário que possuía em sociedades anteriores. Tanto excluída quanto, mais tarde, economicamente dependente, ela, portanto, torna-se subordinada. Somente com a indústria capitalista de larga escala, e somente para a mulher proletária, aparece a possibilidade de reentrar na produção. Porém tal oportunidade carrega um caráter contraditório enquanto as relações capitalistas durarem. Se a esposa proletária “cumpre seus deveres no serviço privado à família, ela é excluída da produção pública e não pode adquirir nada e, quando quer participar da indústria pública e adquirir autonomamente, não tem condições de cumprir os deveres para com a família”[27].

A conclusão de Engels acerca das condições de libertação das mulheres, resumida em alguns parágrafos, geralmente converge com os escritos igualmente breves de Marx sobre o assunto n’O capital. Como Marx, Engels sublinha o papel progressista que a participação no processo coletivo de trabalho pode potencialmente exercer, assim como a sua crucial importância enquanto condição para a libertação humana. Enquanto Marx baseia os seus comentários em uma análise do impacto histórico da indústria capitalista de larga escala, Engels coloca as suas observações no contexto de uma discussão sobre os direitos políticos. Ele novamente estabelece uma analogia entre os trabalhadores e as mulheres, argumentando que ambos os grupos devem possuir igualdade formal para entender o caráter de suas respectivas lutas por “igualdade social real”. “A república democrática não abole o antagonismo [entre o proletariado e a classe capitalista]; pelo contrário, é a primeira a propiciar o terreno em que ele é resolvido. E, do mesmo modo, o caráter peculiar da dominação do homem sobre a mulher na família moderna, assim como a necessidade e o modo de estabelecimento de uma equiparação social real entre os dois, só aparecerá sob uma luz intensa quando ambos tiverem total igualdade de direitos em termos jurídicos”[28].

Embora geralmente consistente com o rascunho de Marx sobre a reprodução da força de trabalho, a consideração de Engels acerca da opressão da mulher é falha ou incompleta em vários aspectos críticos. Em primeiro lugar, assume que é natural que as “tarefas familiares” sejam de responsabilidade exclusiva da mulher e que, portanto, assim sempre será. Além disso, ele não estabelece uma ligação clara entre o desenvolvimento de uma esfera especial associada à reprodução da força de trabalho e a emergência da sociedade de classes, ou, até mesmo, capitalista. No caso das sociedades de classes pré-capitalistas, ele falha em não especificar a natureza da subordinação da mulher entre as diferentes classes. Finalmente, a ênfase de Engels na importância estratégica dos direitos democráticos deixa em aberto a questão da relação entre a revolução socialista, a libertação das mulheres e a luta por direitos iguais. O resultado é ambíguo, podendo sugerir que o programa socialista para a libertação das mulheres consiste em dois objetivos discretos: igualdade de direitos para com os homens na sociedade capitalista, no curto prazo; e total libertação sobre a base de uma forma elevada de família no distante milênio revolucionário.

Engels encerra o capítulo sobre a família com uma longa projeção sobre o futuro[29]. Essas páginas rastreiam, novamente, o desenvolvimento da monogamia até a sua base na propriedade privada e procuram realizar um esboço da experiência da família em uma sociedade na qual os meios de produção foram convertidos em propriedade social. A monogamia verdadeira, isto é, a monogamia tanto para o homem quanto para a mulher, será agora possível, ao lado do amplo desenvolvimento daquelas elevadas formas de emoções íntimas, o amor sexual individual. Exatamente como a relação entre os sexos parecerá não pode ser previsto, pois é assunto da nova geração de mulheres e homens nascidos e criados na sociedade socialista. “Quando essas pessoas existirem, mandarão ao diabo as ideias que hoje se tem a respeito do que elas deveriam fazer; elas mesmas constituirão sua práxis e, em consonância com ela, a opinião pública que julgará a práxis de cada indivíduo. Ponto final”. O foco de Engels no conteúdo emocional e sexual das relações interpessoais dentro do espaço doméstico familiar reflete uma visão comum de que elas representam a essência da assim-chamada questão da mulher.[30]

Somente em um dado momento ele se prolonga nas implicações da futura abolição das funções econômicas da família, observando que, com os meios de produção sendo bens comuns, “a família individual deixará de ser a unidade econômica da sociedade. A economia doméstica privada se transformará em indústria social”. Mais além, “a criação e a educação das crianças serão assunto público”[31]. Essas breves indicações oferecem um guia programático mínimo, e não se diferenciam, em substância, das propostas comunitaristas do século XIX. Resumidamente, o capítulo de Engels sobre a família em A origem permanece uma mistura heterogênea do materialismo mirrado de Morgan com uma visão radical de libertação sexual – temperada com uma compreensão genuína sobre a natureza da propriedade e das relações sociais, e com generosas pitadas do zelo e da perspicácia de Engels.

Nos capítulos de três a oito de A origem, correspondentes à seção sobre o governo e o Estado em Sociedade antiga de Morgan, Engels examina a natureza da sociedade de clãs e traça o surgimento do Estado. Assim como no capítulo dois sobre a família, ele segue a linha argumentativa geral de Morgan, enquanto, ao mesmo tempo, focando-a e integrando nela o material sobre a propriedade. Nas palavras de Engels, as mudanças “formais” entre as instituições da constituição gentílica e aquelas do Estado “foram expostas em sua essência por Morgan, enquanto o conteúdo econômico que as produziu terá de ser acrescentado em grande por mim”[32]. A discussão resultante sofre de defeitos similares àqueles já observados nos escritos de Engels sobre a família. Além disso, fica mais óbvio nesses capítulos que Engels identifica a propriedade privada e a circulação de mercadorias como os desenvolvimentos sociais centrais na história. Em nenhum lugar, porém, ele discute tais fenômenos de forma clara nos termos das relações sociais que constituem o modo de produção no qual se originaram.

Nesses capítulos, uma crítica da propriedade toma o lugar de uma crítica das relações de classe. A propriedade, não a exploração – a apropriação por outra classe do trabalho excedente da classe produtora – vira o objeto implícito da luta de classes. Do ponto de vista da teoria da reprodução social de Marx, porém, tanto a propriedade privada quanto a circulação de mercadorias somente representam manifestações específicas de tipos particulares de sociedades de classes. Em tais sociedades, um dado conjunto de relações de exploração sempre domina, constituindo a base de relações sociais específicas e de formas de propriedade privada, mercado, Estado e afins. A diferença entre essa formulação e aquela em A origem é crucial, e não mera questão de estilo ou modo de exposição. Revela que os argumentos colocados por Engels em A origem geralmente permanecem dentro de um quadro teórico referente a uma crítica utópica da propriedade. Os comentários de Marx sobre o seu rival socialista-utópico favorito, Proudhon, aplicar-se-iam igualmente a Engels: ele deveria ter analisado “as relações de propriedade como um todo, não na sua expressão legal como relações volitivas, mas na sua forma real, isto é, como relações de produção. [Ao invés disso,] ele amarrou o todo dessas relações econômicas na concepção jurídica geral de ‘propriedade’”. Além disso, Engels confundiu a circunstância em que os produtos do trabalho são trocados em uma sociedade com a presença de relações capitalistas, ou ao menos classistas, de produção.[33]

No capítulo final de A origem, capítulo nove, “Barbárie e civilização”, Engels examina as “condições econômicas gerais” por trás dos desenvolvimentos presentes nos capítulos anteriores. “Nesse ponto”, ele observa, “O capital de Marx nos será tão necessário o livro de Morgan”[34]. Infelizmente, é tarde demais, pois as fraquezas analíticas encontradas ao longo de A origem permeiam este capítulo altamente repetitivo.

Engels reafirma a sua avaliação acerca da evolução social no período de declínio da sociedade de clãs e do surgimento da civilização, dessa vez apontando para uma série de importantes marcos temporais. Nos estágios médios da barbárie, a separação entre as tribos pastoris e a massa restante dos outros povos marca a “primeira grande divisão social do trabalho”. Essas tribos domesticavam animais e desenvolviam a agricultura; como um resultado elas logo se viram com produtos [excedentes] que tornaram possível a troca regular. Inevitável e automaticamente, a troca regular levou a uma maior produtividade, a mais riqueza e a uma sociedade na qual a apropriação de trabalho excedente torna-se realidade. Assim, a escravidão aparece. “Da primeira grande divisão social do trabalho originou-se a primeira grande divisão da sociedade em duas classes: senhores e escravos, espoliadores e espoliados”. Engels recorda o leitor de que a mudança na divisão do trabalho também tem consequências nas relações entre os sexos na família. Por conta de a pré-existente divisão do trabalho ter supostamente destinado aos homens a tarefa de buscar subsistência, eles tornaram-se os guardiões da nova riqueza, e as mulheres encontraram-se subordinadas e confinadas ao trabalho doméstico privado. Uma “segunda grande divisão do trabalho” ocorre no fim do período da barbárie, quando a produção artesanal se separa da agricultura. Dessa forma, uma nova clivagem da sociedade em classes desenvolve-se, a oposição entre ricos e pobres. As desigualdades de propriedade entre chefes de família individuais agora levavam à dissolução do espaço doméstico comunal, e o casamento do par se dissolve na família nuclear monogâmica, ainda mais opressiva às mulheres. Finalmente, uma terceira divisão do trabalho emerge no período da civilização: a classe dos mercadores aparece, parasitas cujas atividades nefastas levam a periódicas crises comerciais. No meio tempo, o aparecimento das divisões de classes tornou necessária a substituição da constituição gentílica por uma terceira força, poderosa, mas, aparentemente, acima da luta de classes – nomeadamente, o Estado.[35]

Em resumo, o capítulo final de A origem argumenta que a civilização resulta de uma evolução contínua da divisão do trabalho, a qual, por sua vez, dá origem à troca, à produção de mercadorias, à divisão em classes, à subordinação das mulheres, à família nuclear como unidade econômica da sociedade, e ao Estado. O erro deste diagnóstico é que Engels, mais uma vez, simplesmente listou fenômenos sem fundamentá-los em relações sociais e no funcionamento de um modo de produção dominante. Além disso, ele coloca a divisão técnica do trabalho como elemento de mudança central no processo do trabalho – o que Morgan denominara “modos [arts] de subsistência”. O desenvolvimento das divisões de classes, isto é, das relações sociais exploratórias, simplesmente segue de forma automática uma vez que um certo nível de produtividade material é alcançado. Em outras palavras, o estado das forças de produção mecanicamente determina a natureza das relações de produção. A ênfase na divisão técnica do trabalho neste capítulo constitui um novo elemento, tendendo, de certa forma, a substituir o foco de capítulos anteriores no surgimento da propriedade privada como motor primário da mudança social. Ao mesmo tempo, Engels, como Morgan, frequentemente invoca a ganância e a competitividade como inatos ao ser humano para explicar desenvolvimentos históricos.[36] Enfim, tal análise do desenvolvimento social presente neste capítulo final, análise esta desagregada em si, representa uma das partes mais frágil do raciocínio de A origem.

Da mesma forma, os comentários deste capítulo sobre a emancipação da mulher exibem ambiguidades similares. Engels enfatiza, mais uma vez, o impacto destrutivo da “primeira grande divisão social do trabalho” sobre a posição da mulher, e então salta para uma conclusão supostamente auto evidente:

Aqui já se mostra que a libertação da mulher, sua equiparação com o homem, é e continuará a ser impossível enquanto a mulher for excluída do trabalho social produtivo e permanecer restrita ao trabalho doméstico privado. A libertação da mulher só se torna possível no momento em que ela pode participar da produção em grande escala, ou seja, em escala social, e o trabalho doméstico lhe toma apenas um tempo insignificante. E isso só se tornou possível graças à grande indústria moderna, que não só admite o trabalho feminino em grande escala, mas de fato também o exige e, ademais, aspira a dissolver cada vez mais o trabalho doméstico privado em uma indústria pública.[37]

Como no capítulo sobre a família, Engels aqui assume que o trabalho doméstico é puramente trabalho feminino, não contextualiza as suas afirmações em respeito a uma sociedade de classes específica, e confunde a relação entre a eventual libertação das mulheres na sociedade comunista e os objetivos estratégicos imediatos.

Engels formula a relação entre a transformação social e a igualdade da mulher mais especificamente numa carta escrita em 1885: “é a minha convicção de que a real igualdade entre mulheres e homens pode se tornar realidade somente quando a exploração de ambos pelo capital houver sido abolida e o trabalho doméstico privado transformado numa indústria pública”. No meio tempo, uma legislação protetiva é necessária. “Que a mulher trabalhadora necessita de proteção especial contra a exploração capitalista por conta de suas funções fisiológicas específicas parece óbvio para mim. […] Admito que estou mais interessado na saúde das futuras gerações do que na absoluta igualdade formal entre os sexos durante os últimos anos do modo capitalista de produção”[38]. Novamente, Engels se confronta com o problema entre distinguir igualdade jurídica de real igualdade social.

Engels argumenta em A origem algo que o movimento socialista se recusou a endossar, mas que vem, recentemente, sendo recuperado por teóricas do movimento contemporâneo de libertação das mulheres. Em uma passagem frequentemente citada do prefácio de 1884, Engels fala de dois tipos de produção ocorrendo em paralelo: de um lado, a produção dos meios de subsistência e, do outro, a produção de seres humanos. Tal formulação dualista relembra o nunca publicado A ideologia alemã de 1846, onde Marx e Engels sugerem uma caracterização similar da essência dualista da reprodução social: “A produção da vida, tanto da própria, no trabalho, quanto da alheia, na procriação, aparece desde já como uma relação dupla – de um lado, como relação natural, de outro como relação social”[39].

A dependência que A origem possui em A ideologia alemã, uma obra quarenta anos mais velha, não é limitada a esse paralelo linguístico dramático. Engels tomou emprestado muito do manuscrito esquecido da juventude sua e de Marx, o qual ele redescobrira recentemente entre a papelada de Marx[40]. Assim, ambos os textos fazem uma distinção relativamente abrupta entre os fenômenos naturais e sociais, enfatizando o caráter puramente biológico ou animalesco da procriação. Além disso, A ideologia alemã coloca, assim como A origem, a contínua evolução da divisão do trabalho como tendo papel motivador central no desenvolvimento social. De acordo com A ideologia alemã, a sociedade desenvolve-se em estágios, começando de formas mais simples, nas quais a única divisão do trabalho é natural e fundamentada no ato sexual. Com o crescimento da divisão do trabalho, as relações sociais distinguem-se das naturais, e a “relação da família” fica subordinada. Ambas A ideologia alemã e A origem se referem ao desenvolvimento, nesse ponto da história, de uma relação de escravidão latente no seio da família, representando “a primeira forma de propriedade”[41]. Finalmente, ambos os textos apresentam uma imagem equívoca da família como o gérmen ou núcleo, de dentro do qual maiores contradições sociais se originam ou são refletidas, ela mesma se constituindo como bloco fundamental da sociedade[42].

A forma como Engels se apoiou extensivamente em A ideologia alemã para escrever A origem tem o efeito de importar para esta muitas das fragilidades teóricas do jovem manuscrito. Em 1846, quando Marx e Engels escreveram A ideologia alemã, eles estavam às vésperas de se tornarem profundos contribuidores do movimento socialista. O manuscrito carrega, ainda assim, as marcas de estarem em um lugar ainda cedo do seu desenvolvimento. Assim, quando Engels, no prefácio de A origem, ecoa a dicotomia sugerida em A ideologia alemã ao posicionar dois sistemas separados de produção da vida material, ele simplesmente leva tal distinção entre fenômenos naturais e sociais à sua conclusão lógica. O seu retorno a essa dicotomia, muito depois dele, e ainda mais de Marx, havê-la transcendido em trabalhos posteriores, é um exemplo perfeito da ambiguidade teórica encontrada ao longo de A origem. Socialistas da virada do século demonstraram incertezas com relação à afirmação do prefácio, de modo que tal dualidade da reprodução social lhes pareceu “muito intrigante”, realmente, “quase incompreensível”. Os comentadores soviéticos eventualmente chegaram à conclusão de que Engels havia se enganado, e que a afirmação só pode se referir aos estágios mais primitivos da história humana, quando as pessoas faziam, supostamente, tão parte da natureza que não se poderia dizer que havia relações sociais de produção[43]. O que incomodou esses teóricos foi a implicação de que a família seria um centro autônomo, senão totalmente independente, do desenvolvimento social. E é precisamente essa implicação que despertou a imaginação de feministas socialistas contemporâneas, muitas vezes tentando-as a realizar uma leitura apressada de A origem.

A proposta de Engels em escrever A origem foi “expor os resultados das pesquisas de Morgan em conexão com os resultados de sua [de Marx] – e, em certa medida, posso dizer nossa – investigação materialista da história e, desse modo, evidenciar toda a sua importância”[44]. O tratamento de Engels do material distancia-se, todavia, do seu objetivo, pois ele transforma só de forma parcial o materialismo cru de Morgan. A origem é marcada do começo ao fim pela falha de Engels em não basear a discussão em uma exposição adequada da teoria do desenvolvimento social de Marx. Ao invés disso, Engels apoia-se, erradamente, em diversas abordagens teóricas em adição ao seu entendimento do trabalho de Marx: o determinismo tecnológico implícito em Sociedade antiga de Morgan, a sua principal fonte de dados; a versão pouco desenvolvida do materialismo histórico de A ideologia alemã; e, em geral, uma crítica da propriedade e uma visão do futuro socialista-utópicas. Enquanto A origem consegue, em algumas partes, elevar-se acima desse ecletismo, a sua fragilidade e omissões teóricas tiveram sérias consequências. A origem constituiu um texto defectivo cujas ambiciosas formulações teóricas e políticas ainda assim tornaram-se parte integral do legado socialista.


NOTAS FINAIS [LISE VOGEL]

[1] ENGELS, Friedrich, Anti-Dühring. São Paulo: Boitempo, 2015, p.

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Carta de Engels a Kautsky, 16 de fevereiro e 26 de abril de 1884.

[6] Para a história da publicação assim como uma crítica da obra A mulher e o socialismo de August Bebel, conferir o capítulo 7.

[7] Friedrich Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 19.

[8] Lewis H. Morgan, Ancient Society or Researches in the Lines of Human Progress from Savagery through Barbarism to Civilization. Chicago: Charles H. Kerr & Company, 1877.

[9] Ibid., p. 348.

[10] Ibid., p. 355

[11] Ibid., p. 481.

[12] Ibid., pp. 360, 398-400, 474-475, 477-478, 480-488, 499.

[13] Ibid., pp. 561-562.

[14] O ponto de partida para qualquer avaliação sobre Sociedade antiga de Morgan deve ser a introdução de Leacock para a sua edição de 1963.

[15] Lewis H. Morgan. Ancient Society or Researches in the Lines of Human Progress from Savagery through Barbarism to Civilization. Chicago: Charles H. Kerr & Company, 1877, pp. vii, 3, 8.

[16] Ibid., pp. 511-512, 263, vii; ver também pp. 5-6.

[17] Lawrence Krader, The Ethmological Notebooks of Karl Marx. Assen: Van Gorcum, 1972, pp. 11, 365, n. 21. Ver também a revisão de Krader em Santamaria, Review Article: The Ethnological Notebooks of Karl Marx, edited by L. Krader, in Critique of Anthropology, 1975.

[18] Friedrich Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 35.

[19] Ibid., pp. 43-45.

[20] Ibid., p.

[21] Ibid., p. 59.

[22] Ibid., p. 60.

[23] Ibid., p. 67.

[24] Ibid., p. 68

[25] Ibid., p. 73.

[26] Ibid., p. 73-75.

[27] Ibid., p. 74.

[28] Ibid., p. 75.

[29] Ibid., p. 75-82.

[30] Ibid., p. 82. Os assuntos relacionados ao amor e à sexualidade foram tratados ainda mais extensamente por Bebel em August Bebel, Woman under Socialism. Nova York: Schocken Books, 1971.

[31] Ibid., p. 76.

[32] Ibid., p. 103.

[33] Carta de Marx a J. D. Schweitzer, 24 de janeiro de 1865.

[34] Friedrich Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 147.

[35] Ibid., pp. 147-156.

[36] Ibid.

[37] Ibid., p. 150.

[38] Carta de Engels a Gertrude Guillaume-Schak, 5 de julho de 1885.

[39] Karl Marx, Friedrich Engels, A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 34.

[40] Ibid., pp. 33-34; ver também Friedrich Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 68. Sobre A ideologia alemã, ver capítulo 4. Sobre a similaridade dos textos, ver também H. Kent Geiger, The Family in Soviet Russia, Cambridge: Harvard University Press, 1968, pp. 30-32.

[41] Karl Marx, Friedrich Engels, A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, pp. 36-37, 90; Friedrich Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019, pp. 60, 68, 74.

[42] Marx and Engels A sagrada família, p. 46; Engels 1972, pp. 61, 68, 69, 74.

[43] Sobre os socialistas da virada do século, conferir H. Kent Geiger, The Family in Soviet Russia, Cambridge: Harvard University Press, 1968, pp. 31-32. Sobre a visão soviética, conferir Bernhard Stern, Engels on the Family, in Science and Society, 12, 1948, p. 48, n. 10. Para outras críticas do dualismo implícito em A origem, ver Liz Brown, The Family and Its Genealogies: A Discussion of Engels’ Origin of the Family, 1979 e Bridget O’Laughlin, Marxist Approaches in Anthropology, in Annual Review of Anthropology, 8, 1975, pp. 5-7.

[44] ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 19.

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