É Possível Ser LGBT e Revolucionário em Goiás?

A função da ideologia é ocultar a autêntica “natureza” do capital, negar fundamentos humanos e corporais que o sustentam: toda a estrutura é governada por nosso trabalho alienado, nossa libido reprimida, nossa energia alienada. Perceber isso envolve adquirir uma consciência revolucionária, uma libido revolucionária. Como escreve Luciano Parinetto, “a revolução proletária também passa pelo buraco do cú”. (Mario Mieli, Por um comunismo transexual. p 187)

Chegado aos 10 anos de sua criação, o LGBT Comunista – coletivo vinculado organicamente ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) -, após algumas tentativas, finalmente consolidou seu primeiro núcleo no estado de Goiás realizando, ao longo do mês de Janeiro, seu I Seminário de Organização.

Este coletivo busca atuar na formação de um bloco revolucionário que, desde já, germine possibilidades para uma nova sociabilidade coletivizada, com a intenção de ser um espaço aglutinador daqueles que compreendem a LGBTfobia como diretamente vinculada aos processos de alienação e de exploração da classe trabalhadora.

 Tal organização se dá em um momento conjuntural complexo, que tem demandado esforços não apenas no entendimento da crise em seus múltiplos aspectos mas, também, do seu sentido, reforçando que a única saída possível para a humanidade é a construção do socialismo. O presente texto objetiva, portanto, ser um primeiro momento de acúmulo do coletivo no estado.

Na conjuntura internacional Donald Trump têm demonstrado um novo momento do imperialismo estadunidense. Ao intensificar as políticas colonialistas, cada vez mais agressivas por parte dos Estados Unidos, foi responsável pelo feito inédito do sequestro de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, e sua esposa Cilia Flores em 2 de janeiro de 2026. Para além disso tem realizado crescentes ameaças de invasão à Groenlândia, ou usando do Conselho de Paz para o desenvolvimento de extensos planos para que assuma o controle de Gaza.

Estas medidas, que possuem como centro gravitacional a crise sistêmica da sociedade norte americana, reorientam o papel da América Latina na política internacional e a submetem à condição de exploração total e irrestrita de suas riquezas, organizando um cerco militar na região e fomentando conflitos internos nos países sul-americanos. Uma vez que a reorganização da hegemonia global tem por relação o tensionamento das relações sociais, acompanhamos o avanço de políticas e discursos reacionários que culpam as chamadas minorias pela crise do próprio sistema, buscando criminalizá-las como responsáveis pelos problemas do capitalismo. Não à toa Trump encerrou o financiamento do maior programa mundial de pesquisa para cura do HIV[1].  

No Brasil, mesmo dividida, a extrema-direita tem ampla capacidade de mobilização social através de seu discurso conservador aliado às dinâmicas do Capital Internacional. Acompanhamos um intenso processo de disputa da sociedade por meio das redes sociais com campanhas de desinformação impulsionadas pelo algoritmo. Junto ao fato de serem maioria no Congresso, acompanhamos uma ampla agenda de ataques à classe trabalhadora e de benefícios parlamentares sendo aprovadas, na calada da noite, sem resistência e sem transparência.

Historicamente, a fração burguesa do agro age como impulsionador das relações de dependência. A abertura econômica ocorrida ao longo do governo FHC permitiu uma transformação estrutural na agroexportação brasileira, tornando-a um complexo industrial. A partir das chamadas revoluções verdes, o pequeno produtor familiar e fazendeiro foi levado a buscar melhores condições na cidade, ou a arrendar para o médio e grande produtor. Essas transformações materiais e ideológicas criaram um caldo de transformações culturais, locais, regionais e nacionais, não apenas no campo mas também nas cidades. A cultura do consumo americano, o “American Way of Life” passou a ser introjetada no país, com filmes, séries, livros e músicas, o estilo, a linguagem e as roupas da juventude brasileira, que construiu seus métodos plurais de resistência.

O processo de reprimarização da economia frente à explosão dos preços das commodities, posto em prática pelos governos petistas no começo do século XXI, fortaleceu esse setor o qual maior reproduziu o discurso antipetista e foi o  principal agitador do golpe de 2016. Usando da pauta da moral e dos costumes, passou a tentar se colocar como um novo ideário de sociedade brasileira, abandonando completamente qualquer resquício de autonomia e se aliando com movimentos fascistas mundiais. Essa transformação, junto a disputa ideológica, fez com que ocorresse um grande investimento do agro em propagandas e marketing. Assim, em especial com o ressurgimento do sertanejo, o agro se tornou pop ao normalizar no imaginário popular símbolos como o chapéu, a bota e a caminhonete, investido em virilidade e construção de uma masculinidade.

O avanço do sertanejo representou e representa ainda hoje um aprofundamento de relações sociais marcadas pelo patriarcalismo e o escravismo de uma elite da terra vinculada à agroexportação, frutos da própria formação social do interior do país. Com a plataformização da cultura via streaming, impulsionado pelo algoritmo, o novo sertanejo ampliou o imagético burguês brasileiro do eixo Rio-São Paulo para o eixo Centro-Sul, momento coroado com o lançamento do reality Poderosas do Cerrado em 2026 (Globoplay). O recente acordo entre MERCOSUL e a União Europeia coroa novamente esse setor da economia brasileira. Tal processo acaba por colocar o Brasil de forma a depender do movimento de preços internacionais e reforçar nossa dependência tecnológica e de produção, intensificando a superexploração da classe trabalhadora que se expressa no aumento dos conflitos sociais.

Dados de 2025 demonstram que o feminicídio e a LGBTfobia em Goiás tem aumentado enquanto outros indicadores de violência, como roubo, estão em baixa[2]. Segundo dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia, Goiânia está no grupo das cinco capitais mais violentas do país para LGBT’s[3]. É importante demarcar que levantamentos foram feitos, em sua maioria, por movimentos sociais, uma vez que não há consolidado uma política de produção de dados referentes às LGBT, dificultando a construção e efetividade de políticas públicas direcionadas. Além disso, há uma real dificuldade de implementação do Formulário Rogéria, criado em 2024, que permite o registro de casos de discriminação por questões de gênero e sexualidade em todos os âmbitos da Justiça brasileira. 

Caiado e Mabel, ambos articuladores do golpe de 2016, utilizam da violência policial e vigilância como apelo mobilizador de suas bases sociais, dando espaço para que violências sejam cristalizadas na sociedade. Ambos atuam completamente aliados ao imperialismo tendo Caiado oferecido terras goianas ao governo norte americano[4] enquanto a vice-prefeita de Goiânia estava na excursão brasileira em Israel que tratava sobre o uso de tecnologia militar de guerra na segurança pública das cidades brasileiras, ficando presa em um bunker devido aos conflitos da região[5].

Hoje a economia goiana se encontra integrada ao Capital Internacional tendo por base[6], primeiro, o comércio de grãos in natura, em especial da soja e do milho que juntos somam quase 80% da área de produção do estado. Segundo, o setor de serviços que, devido à posição geográfica centralizada do estado, tem ganho investimentos como centro logístico de distribuição de empresas como Shoppe e Amazon[7]. Por último, e um setor industrial de transformação básica, principalmente em torno da metalurgia – o que nos ajuda a compreender o quadro da educação pública no estado e o avanço de parcerias da Secretaria de Educação (SEDUC) com o Sistema S para a oferta do ensino técnico[8] dentro das possibilidades do novo ensino médio. Tal cenário caminha na construção de uma classe trabalhadora em Goiás que não precisa de uma qualificação para além de cursos técnicos e que seja submetida a postos de trabalho cada vez mais precários, em grande maioria dentro lógica 6×1. Além disso, ambos aplicam uma política de esvaziamento e privatização dos serviços públicos no estado, como ocorrido com a CELG, a tentativa de privatização da SANEAGO, o esvaziamento da COMURG e as investidas contra o IPASGO e o IMAS, planos de saúde que atendem os servidores públicos do estado.

Dessa maneira, o projeto do Golpe segue em avanço e tem garantido o aumento da alienação do trabalho no país, reforçando relações sociais machistas e patriarcais. O diálogo da direita brasileira com movimentos fascistas internacionais estabelece como alvos a serem eliminados corpos estranhos a uma organização de estrutura familiar ociedental e cristã, se fazendo de discursos cada vez mais reacionários em cima da pauta da moral e dos bons costumes enquanto assaltam o orçamento público via emendas parlamentares. Em contraposição, os movimento sociais populares têm ganho fôlego pela construção de pautas unitárias, como o recente exemplo do Plebiscito Popular que foi capaz de colocar como pauta o fim da escala 6×1, demanda que incide diretamente sobre a população LGBT, uma vez que são estes quem tem ocupados os postos de trabalho em telemarketing e shoppings, por exemplo.

 As contradições das questões de gênero em uma sociedade capitalista devem ser compreendidas através da sua relação com os movimentos das lutas de classe, de forma que avançar no combate a LGBTfobia é construir o socialismo. Urge a necessidade de práticas que possibilitem germinar um novo ideário de sociedade pautada no fim da alienação e opressão entre os seres humanos e da exploração entre nós e nosso meio –  daí nasce o coletivo em Goiás.

Somando-se a luta de tantas outros, uma vez que Goiás sempre teve destaque na luta pelos direitos LGBT no país – sendo Goiânia a segunda cidade do país  a organizar uma Parada do orgulho, antes mesmo de São Paulo – o LGBT Comunista busca a construção de espaços permanentes de organização e discussão dos movimento sociais LGBTs, já que conjuntura tem demandado cada vez mais esforços para a construção de um programa unitário de resistência que paute o fim do capitalismo. Este, por sua vez, deve construir um conjunto de mediações que possibilitem a melhoria do dia a dia da população LGBT no estado buscando a construção de um Plano de Cidadania LGBT, tanto no âmbito municipal quanto no âmbito estadual, fortalecendo os serviços público, ampliando e descentralizando o acesso integral à saúde voltada à população LGBT, políticas de ações afirmativas na educação e mercado de trabalho, campanhas pelo fim da violência e construção de espaços de acolhida para aqueles que sofreram algum tipo de violência .

Reafirmamos que a luta pelo fim do capitalismo passa pelo fim das opressões de gênero e da sexualidade que mata um LGBT a cada 34 horas[9] e quatro mulheres diariamente no Brasil[10]. Reconhecer a pluralidade da classe trabalhadora e as diversas formas de reprodução do Capital é base para a construção de um programa revolucionário à altura das necessidades dos trabalhadores brasileiros. LGBT, além de ter classe, é vanguarda da revolução, construindo mobilizações pela melhoria de suas vidas e apontando que o único lugar que nos cabe ocupar são as ruínas da sociedade capitalista.

Pelo Poder Popular! 


[1] https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/05/31/governo-trump-encerra-programa-crucial-para-busca-de-vacina-contra-o-hiv.ghtml

[2] https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2026/01/19/feminicidio-cresce-6percent-em-goias-em-2025.ghtml

[3] https://grupogaydabahia.com.br/257-mortes-violentas-237homicidios-e-20-suicidios/

[4] https://www.jornalopcao.com.br/bastidores/como-foi-a-conversa-entre-caiado-e-o-representante-da-embaixada-dos-eua-730929/

[5] https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2025/06/13/vice-prefeita-de-goiania-diz-que-acordou-com-sirene-e-esta-abrigada-em-bunker-de-israel-apos-ataques.ghtml

[6] https://goias.gov.br/imb/goias-em-dados-2024/

[7] https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2025/11/24/capital-da-logistica-conheca-cidade-goiana-onde-se-concentram-mais-de-15-centros-de-distribuicao-de-varejo-como-amazon-e-shopee.ghtml

[8] https://empreenderemgoias.com.br/2025/01/11/governo-e-sistema-s-criam-o-programa-profissionaliza-goias/

[9] https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/01/18/mortes-violentas-de-pessoas-lgbt-2025.ghtml

[10] https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/01/20/brasil-registra-recorde-historicos-de-feminicidios-em-2025-quatro-mulheres-sao-assassinadas-por-dia-no-pais.ghtml

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